A tadalafila, medicamento indicado para o tratamento da disfunção erétil, ganhou popularidade entre homens jovens nos últimos anos. Além do uso recreativo para potencializar o desempenho sexual, o fármaco passou a ser divulgado nas redes sociais como um possível aliado da prática de musculação, apesar da ausência de comprovação científica para essa finalidade. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), obtidos pelo Terra, mostram essa realidade: as vendas da tadalafila saltaram de 3,2 milhões de unidades em 2015 para 74,9 milhões em 2025, um aumento superior a 2.000% em apenas dez anos.
A popularização da tadalafila não aparece apenas nas estatísticas oficiais. Durante a apuração desta reportagem, relatos sobre o uso do medicamento surgiram com frequência em conversas informais com homens na faixa dos 20 e 30 anos, principalmente associados à busca por melhor desempenho sexual e, mais recentemente, à prática de exercícios físicos.

Tadalafila virou “hype” entre jovens e teve vendas 2.000% maiores em dez anos – Foto: Jhonatan Cantarelle/Agência Saúde-DF
Mas essa crescente utilização do fármaco sem indicação médica vem fazendo com que entidades ligadas ao uso racional de medicamentos alertem para os riscos da prática. Uma das instituições que se manifestou sobre o tema foi o Centro de Apoio à Terapia Racional pela Informação sobre Medicamentos (CEATRIM), da Universidade Federal Fluminense (UFF). O órgão afirma que a busca por atalhos para melhorar o desempenho físico, impulsionada por conteúdos disseminados nas redes sociais, pode estimular o uso irracional de medicamentos.
Segundo o CEATRIM, o uso indiscriminado da tadalafila pode provocar reações adversas e interações perigosas com outros medicamentos. Entre os efeitos colaterais mais comuns estão dor de cabeça, indigestão, dor nas costas, rubor facial, congestão nasal e dores musculares. Em casos mais raros, o medicamento pode causar alterações na visão, na audição e até no ritmo cardíaco.
O salto nas vendas
O aumento da medicação foi impulsionado, em parte, pela popularização do medicamento nas redes sociais, onde passou a ser apresentado como uma ferramenta para melhorar o desempenho sexual e até mesmo o rendimento físico. A tadalafila deixou de ser associada apenas aos consultórios de urologia e ganhou espaço em vídeos de influenciadores que a promovem como uma espécie de “pré-treino”.
A promessa de maior irrigação sanguínea e melhor desempenho nos exercícios estimulou até o surgimento de produtos à base de tadalafila em formato de gummies (balas mastigáveis). Em 2025, a Anvisa proibiu a comercialização desses produtos por questões regulatórias e de segurança.
O remédio que virou recomendação entre amigos
Todos os homens ouvidos para esta reportagem têm entre 26 e 30 anos e não serão identificados para preservar sua privacidade. Um dos jovens relatou conhecer amigos que fazem uso excessivo do medicamento.
“Tenho amigo que já tomou até quatro comprimidos de uma vez. Depois ele sente dor de cabeça, dor nas costas e dor muscular. Fica até cansado. Eu nunca senti nada porque, quando tomo, é apenas um comprimido”, contou.
Ele afirma que, na maioria das vezes, os homens não comentam com as parceiras que utilizaram o medicamento antes da relação sexual. “Eu pesquisei as contraindicações e mesmo assim tomei porque achei que seria melhor para a relação. Uso algumas vezes e ainda tenho medo dos efeitos colaterais.”
O entrevistado, que trabalha em eventos noturnos, afirma que a procura pela medicação é frequente nesse ambiente. “Durante as festas, é comum alguém perguntar se tem quem venda tadalafila. Tem gente que lucra com isso: compra na farmácia e revende na noite. Uma caixa custa cerca de R$ 10, mas tem gente que vende um único comprimido por R$ 30.”
Em uma conversa informal durante uma festa, diversos jovens relataram já ter utilizado a tadalafila. Alguns afirmaram que costumam tomar o medicamento em noites de balada, quando pretendem prolongar encontros sexuais. Um deles, que está em um relacionamento estável, disse que decidiu experimentar a substância para melhorar seu desempenho com a namorada. “Foi bom. Consegui ter várias relações seguidas”, contou.
Outro amigo da mesma faixa etária relatou usar o medicamento com mais frequência. “Isso é problema de homem, você não vai entender”, respondeu ao ser questionado sobre as razões do uso.
Durante a conversa, os participantes trocavam experiências e recomendações. Os usuários mais frequentes incentivavam os demais a experimentar a substância. “Não tem perigo nenhum”, repetiam.
Um dos jovens afirmou que quase todo o seu círculo de amizades faz uso da medicação e que ele raramente fica sem uma cartela do remédio.“Eu tomo e tenho aquelas noites boas”, disse, entre risos. Ele também afirmou conhecer pessoas que utilizam a substância para praticar exercícios físicos. “Muitos amigos tomam até para treinar. Eles dizem que ajuda bastante e não faz mal.”
Entre esses jovens, a tadalafila também é chamada de “azulzinho”, em referência ao Viagra, cujo princípio ativo é o citrato de sildenafila. O Viagra foi o primeiro medicamento oral para disfunção erétil lançado no mercado e ficou conhecido pela coloração azul de seus comprimidos.
Os riscos por trás da popularização
A facilidade de acesso contribui para esse cenário que cerca a tadalafila. Nenhum dos jovens ouvidos apresentou receita médica para comprar o medicamento. Além disso, nas redes sociais, influenciadores acumulam milhões de visualizações ao compartilhar relatos sobre os supostos benefícios do remédio. Em muitos desses conteúdos, a tadalafila deixa de ser apresentada como tratamento para uma condição médica específica e passa a ser divulgada como uma espécie de “energético sexual” ou até mesmo como auxílio para a prática esportiva.
Especialistas alertam, porém, que a automedicação e o uso recreativo podem trazer riscos à saúde e reforçar uma cultura de pressão por desempenho sexual que afeta principalmente homens jovens. Segundo o cardiologista Marcelo Bergamo, a tadalafila é considerada um medicamento seguro quando utilizada corretamente e sob orientação médica, mas não está livre de efeitos adversos.
“O principal efeito da tadalafila é promover a dilatação dos vasos sanguíneos, o que pode levar à redução da pressão arterial. Em pessoas com doenças cardíacas, pressão baixa, arritmias ou problemas coronarianos, o uso sem avaliação médica pode aumentar o risco de tonturas, desmaios e, em situações específicas, complicações cardiovasculares mais graves”, explica.
O especialista ressalta ainda que muitas pessoas desconhecem que possuem doenças cardíacas silenciosas, o que torna a automedicação ainda mais preocupante. Outro fator de risco comum entre jovens é a combinação do medicamento com álcool e drogas recreativas. De acordo com Bergamo, o álcool pode potencializar a queda da pressão arterial, aumentando as chances de tontura, fraqueza, desmaios e acidentes.
Quando a mistura pode ser perigosa
A situação se torna ainda mais delicada quando a tadalafila é associada a substâncias estimulantes, como cocaína, ecstasy e anfetaminas. “Essas drogas aumentam a frequência cardíaca e a pressão arterial, enquanto a tadalafila promove vasodilatação. Essa combinação pode sobrecarregar o sistema cardiovascular e aumentar o risco de arritmias, dor no peito, infarto e até morte súbita em pessoas predispostas”, alerta.
O cardiologista destaca ainda que a interação mais perigosa ocorre com medicamentos à base de nitratos, frequentemente utilizados no tratamento de angina e outras doenças cardíacas. Entre eles estão a nitroglicerina, o mononitrato de isossorbida e o dinitrato de isossorbida. ‘Quando usados junto com a tadalafila, esses medicamentos podem provocar uma queda abrupta e potencialmente fatal da pressão arterial”, afirma.
Além dos nitratos, o especialista recomenda cautela para pacientes que utilizam alguns medicamentos para hipertensão, alfabloqueadores indicados para problemas urinários e remédios que alteram o metabolismo da tadalafila. Apesar de muitos usuários associarem o risco apenas a pessoas mais velhas, Bergamo afirma que a juventude não elimina a possibilidade de complicações. “Eventos graves são incomuns, mas podem ocorrer, principalmente quando o medicamento é utilizado em doses elevadas ou associado ao consumo de álcool e drogas recreativas.”
Quais são os sinais de alerta?
Entre os sinais de alerta que exigem atendimento médico imediato estão dor no peito, falta de ar, palpitações intensas, desmaios, tontura importante, alterações súbitas da visão ou da audição e ereções dolorosas e prolongadas por mais de quatro horas, condição conhecida como priapismo.
Para o cardiologista, o crescimento do uso recreativo entre jovens tem gerado preocupação entre médicos e sociedades científicas. “O uso recreativo pode criar uma falsa sensação de necessidade do medicamento para o desempenho sexual, especialmente entre jovens sem qualquer indicação clínica. Além disso, já existem relatos de atendimentos em pronto-socorro relacionados ao uso inadequado, incluindo episódios de hipotensão, desmaios, arritmias, priapismo e complicações decorrentes da associação com álcool e drogas ilícitas.”
Bergamo reforça que a tadalafila não melhora a saúde cardiovascular nem protege contra problemas cardíacos. “Trata-se de um medicamento eficaz e seguro quando prescrito corretamente, mas seu uso indiscriminado, principalmente em contextos recreativos e associado a álcool ou drogas, pode trazer riscos reais à saúde cardiovascular e geral. O fato de ser amplamente conhecido não significa que seja inofensivo.”
“Ansiedade de performance” e pressão por perfeição
Para o psiquiatra Gustavo Estanislau, especialista em Psiquiatria da Infância e da Adolescência pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (UFRGS) e pesquisador do Instituto Ame Sua Mente, o aumento do uso de tadalafila entre jovens está ligado à combinação de acesso facilitado ao medicamento, ampla divulgação nas redes sociais e uma crescente insegurança em relação ao desempenho sexual.
Segundo ele, as mídias sociais reforçam a ideia de que o homem deve estar “sempre pronto para performar” e de forma “impecável”, o que gera ansiedade e sensação de inadequação. Nesse contexto, muitos jovens sem diagnóstico de disfunção erétil recorrem ao medicamento para garantir que “nada vai dar errado”.
O especialista alerta que o principal risco é o desenvolvimento de uma dependência psicológica. “Os jovens começam a acreditar que estão performando bem por causa da medicação”, diz ele. Segundo o médico, isso faz com que eles passem a temer um mau desempenho sem ela. Para ele, a tadalafila pode mascarar a insegurança e a ansiedade de performance, mas não trata a causa do problema.
Estanislau também destaca que o uso da substância frequentemente aparece associado ao consumo de álcool e outras drogas, dentro de um contexto de experimentação e busca por validação social. “Existe uma perda na confiança de que eles podem performar bem sem a medicação”, afirma.
Na avaliação do psiquiatra, a obsessão pela performance afasta os jovens de experiências mais naturais de intimidade, autoconhecimento e aprendizado. “As falhas e os erros passam a ser vistos como algo muito grave”, explica, acrescentando que isso reduz a tolerância às frustrações e pode prejudicar a construção de relações afetivas mais saudáveis.
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Fonte: Terra





















































