Em tempos de Copa do Mundo, uma reflexão sobre envelhecimento, gratidão e o compromisso de construir uma sociedade que valorize aqueles que dedicaram a vida ao desenvolvimento de Sergipe.
Os professores doutores Marzo Grigoletto e Elyson Carvalho assinam o artigo a seguir, no qual refletem sobre o verdadeiro significado dos nossos ídolos e a importância de valorizar o envelhecimento com dignidade, destacando iniciativas desenvolvidas em Sergipe.
Em tempos de Copa do Mundo, o país inteiro parece respirar futebol. As ruas ganham novas cores, as conversas giram em torno dos jogos e milhões de brasileiros acompanham, com entusiasmo, cada passo da seleção. É natural que, nesse cenário, muitos encontrem nos grandes jogadores seus ídolos e suas inspirações.
Mas quando se olha para além dos estádios e das manchetes, encontramos uma pergunta que a Copa, sem querer, nos coloca diante: quem são, de fato, os nossos maiores ídolos? E, mais do que isso, como tratamos essas pessoas?
Há um esquecimento silencioso que atravessa gerações. Esquecemos os idosos. Esquecemos que um dia também seremos idosos. Esse descuido começa antes da velhice: na vida adulta, quando adiamos os cuidados com a saúde; na meia-idade, quando não investimos na qualidade de vida que gostaríamos de ter mais tarde; e na vida pública, quando não lutamos por políticas que garantam envelhecimento com dignidade, autonomia e inclusão. O resultado é uma sociedade que, com frequência, trata seus idosos como um problema a administrar — e não como o patrimônio humano que são.

Prof. Dr. Marzo Grigoletto e Prof. Dr. Elyson Carvalho, autores do artigo “Nossos Maiores Ídolos” – Foto: arquivo pessoal
Por certo, a forma como uma sociedade cuida de quem envelheceu revela muito sobre seus valores, assim como sobre o futuro que está construindo para si mesma. Olhando por essa óptica, quase sempre nos deparamos com uma tendência desanimadora no Brasil, conclusão facilmente extrapolada para muitos lugares do mundo. Entretanto, Sergipe parece ir na contramão dessa tendência. Nos últimos anos, diversos projetos da Universidade Federal de Sergipe e do SergipePrevidência têm demonstrado que é possível olhar para o envelhecimento com outra perspectiva: não como um peso, mas como uma oportunidade de transformação social.
Para nós, parece claro, e digno de registro, que esse movimento ganhou força quando dois gestores com visões convergentes se encontraram. O Prof. André Maurício Conceição de Souza, reitor da UFS, e o Prof. José Roberto Lima Andrade, presidente do SergipePrevidência, compartilham uma convicção comum: que a excelência na gestão pública nasce do conhecimento, e que investir nas pessoas é a forma mais responsável de construir um Estado melhor. Dessa convergência nasceu o projeto Movimento e Saber.
O Movimento e Saber é uma parceria entre a UFS, a FAPESE e o SergipePrevidência que, nos próximos três anos, desenvolverá uma ampla estratégia de pesquisa, extensão e inovação voltada aos aposentados e pensionistas do Estado. Reunindo exercício físico baseado em evidências científicas, inclusão e autonomia digital, desenvolvimento de tecnologias para o envelhecimento saudável e fortalecimento dos vínculos sociais, o programa busca transformar a realidade de centenas de sergipanos — e produzir conhecimento capaz de orientar futuras políticas públicas.
Ainda há muito o que avançar em nosso Estado, mas certamente há muito o que, torcer, se orgulhar e inspirar outros estados, como o Brasil faz pelo futebol. A Copa do Mundo continua avançando e, dentro de pouco tempo, novos campeões serão conhecidos, novos ídolos ocuparão as manchetes, novos gols entrarão para a história. Entretanto, precisamos lembrar que existe um campeonato muito mais importante, disputado todos os dias, longe dos estádios e das câmeras. É o desafio de construir uma sociedade que reconheça, respeite e cuide daqueles que dedicaram uma vida inteira ao trabalho, à família e ao desenvolvimento do nosso Estado. Antes de conhecermos qualquer craque ou qualquer camisa histórica, nossos primeiros heróis já estavam dentro de casa — eram nossos pais, nossas mães, nossos avós. Pessoas que venceram, em silêncio, as partidas mais difíceis da vida.
Se conseguirmos oferecer a esses homens e mulheres mais saúde, autonomia, inclusão e dignidade, talvez esse seja o maior título que Sergipe possa conquistar. E o maior reconhecimento que podemos dar àqueles que sempre foram — e continuarão sendo — os nossos maiores ídolos.
Marzo Grigoletto é graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Maria. Possui mestrado em Metodologia da Pesquisa em Ciências da Saúde, doutorado em Ciências Aplicadas à Atividade Física e ao Esporte pela Universidade de Córdoba, na Espanha, e pós-doutorado no Hospital Universitário Reina Sofía, também na Espanha.
Prof. Dr. Elyson Carvalho possui graduação em Engenharia Elétrica, com habilitação em Eletrônica, pela Universidade Federal de Sergipe (2006), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (2007) e doutorado em Engenharia Elétrica pela mesma instituição (2012). Em 2020, realizou estágio pós-doutoral na área de Microeletrônica, também na Universidade Federal de Campina Grande.
Atualmente, é Professor Associado III da Universidade Federal de Sergipe (UFS), coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica (PROEE/UFS), pesquisador do Grupo de Pesquisa em Robótica e líder do Grupo de Pesquisa em Instrumentação Eletrônica, ambos vinculados à UFS.
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