{"id":85314,"date":"2015-10-26T18:00:19","date_gmt":"2015-10-26T21:00:19","guid":{"rendered":"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/?p=85314"},"modified":"2015-10-26T18:00:19","modified_gmt":"2015-10-26T21:00:19","slug":"lambe-sujos-x-caboclinhos-todo-mundo-aqui-e-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/lambe-sujos-x-caboclinhos-todo-mundo-aqui-e-negro\/","title":{"rendered":"Lambe Sujos X Caboclinhos: Todo mundo aqui \u00e9 negro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 manh\u00e3 do domingo, dia 11, em Laranjeiras, munic\u00edpio de Sergipe, onde cerca de 70 rapazes com a pele pintada de preto, vestindo gorros e shorts vermelhos, dan\u00e7am ao ritmo das batidas de percuss\u00e3o dos companheiros que batucam seus instrumentos. Percorrem as ruas desde a madrugada e s\u00f3 v\u00e3o parar no final do dia, quando termina a festa dos Lambe Sujos X Caboclinhos, desconhecida para a maioria dos brasileiros, embora \u00edntima de antrop\u00f3logos e historiadores, que abarcam ali para estudar um peda\u00e7o escondido da alma brasileira.<\/p>\n<div id=\"attachment_85315\" style=\"width: 569px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/inc_thumb3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-85315\" class=\" wp-image-85315\" alt=\"inc_thumb3\" src=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/inc_thumb3.jpg\" width=\"559\" height=\"373\" srcset=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/inc_thumb3.jpg 970w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/inc_thumb3-300x199.jpg 300w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/inc_thumb3-342x227.jpg 342w\" sizes=\"(max-width: 559px) 100vw, 559px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-85315\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Mauricio Pisani<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro dos moradores de Laranjeiras paramentados como negros e \u00edndios acontece uma vez por ano, num cortejo teatralizado em homenagem \u00e0 hist\u00f3ria dos escravos da regi\u00e3o, que lutavam por sua liberdade. Os Lambe Sujos, pintados com uma tinta negra escura, s\u00e3o guiados por um pr\u00edncipe, e pelo rei do quilombo. Atr\u00e1s deles v\u00e3o os Caboclinhos, de cocares na cabe\u00e7a, e a pele pintada de vermelho. Representam os \u00edndios contratados pelos donos dos engenhos de a\u00e7\u00facar para recapturar seus escravos, pr\u00e1tica comum naquele Brasil at\u00e9 1888, quando a escravid\u00e3o foi finalmente abolida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo \u00e9 seguido por um p\u00fablico fascinado pela est\u00e9tica, o som e o entusiasmo desses atores por um dia, que encenam a festa inventada por negros alforriados por volta de 1860. Desde ent\u00e3o, o festejo se repete no munic\u00edpio de 27.000 habitantes, no segundo semestre do ano. De uns anos para c\u00e1, todo segundo domingo de outubro, sempre perto do anivers\u00e1rio da independ\u00eancia de Sergipe, que at\u00e9 1820 vivia sob a tutela do Estado da Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Lambe Sujos X Caboclinhos, ou apenas Lambe Sujos, como \u00e9 mais conhecida, poderia ser mais uma festa regional de uma pequena cidade em qualquer lugar do Brasil. Mas a quantidade de informa\u00e7\u00f5es e sutilezas concentradas nessa narrativa folcl\u00f3rica \u00e9 t\u00e3o rica que j\u00e1 inspirou dezenas de textos e livros acad\u00eamicos. \u201cEstamos retratando a hist\u00f3ria da cultura brasileira, de um povo humilde do Brasil. A senhora n\u00e3o encontra isto nas universidades. As universidades \u00e9 que vem aqui beber da fonte do mestre\u201d, diz a esta rep\u00f3rter o Mestre Z\u00e9 Rolinha, o rei dos Lambe Sujos h\u00e1 30 anos, e considerado o dono da festa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando crian\u00e7a, ele tamb\u00e9m brincava, levado pelo pai e pelo tio que integravam o grupo. O ouvido f\u00e1cil para aprender a tocar instrumentos, al\u00e9m de todas as hist\u00f3rias e lendas que cercam o folguedo, foram enredando Z\u00e9 Rolinha. Os mais velhos viram nele o candidato natural para assumir o posto de monarca, papel que exerce at\u00e9 hoje com galhardia. Em uma casa modesta, mas de cora\u00e7\u00e3o gigante, Z\u00e9 Rolinha vive um entra e sai de pessoas na v\u00e9spera do cortejo. \u00c9 ele quem cuida da organiza\u00e7\u00e3o, pede apoio ao poder p\u00fablico, e se articula com seus pares para manter a tradi\u00e7\u00e3o cultural e a hist\u00f3ria \u201cdo meu munic\u00edpio, do meu Sergipe e do meu Nordeste brasileiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laranjeiras, a 20 minutos da capital, Aracaju, foi uma das mais pr\u00f3speras cidades do pa\u00eds nos tempos da escravid\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0 riqueza proporcionada pela cana de a\u00e7\u00facar plantada ali. Chegou a ser candidata a capital da ent\u00e3o prov\u00edncia de Sergipe, numa \u00e9poca em que as fam\u00edlias brancas endinheiradas tinham acesso ao que havia de melhor do exterior, vindo de navio pelo rio Cotinguiba. Mas era o trabalho bra\u00e7al de milhares de escravos que sustentava os engenhos. A \u00e2nsia pela liberdade criou movimentos de quilombos, negros fugitivos que formaram povoados ali, vivos at\u00e9 hoje atrav\u00e9s de seus descendentes. \u201cA festa encena o que Laranjeiras vivenciou historicamente\u201d, afirma Evandro Bispo, um dos organizadores do folguedo, que teria sido criado antes da aboli\u00e7\u00e3o, embora s\u00f3 existam registros oficiais da festa a partir de 1930. Bispo \u00e9 Lambe Sujo numa parte do dia, e pai Ju\u00e1 na outra, quando sai fantasiado como tal de um terreiro de candombl\u00e9 para ser o guia espiritual dos negros diante da batalha que v\u00e3o encenar ao final da tarde contra os Caboclos. \u00c9 o ponto alto do folguedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos querem ser pretos no dia da festa, come\u00e7ando na madrugada de domingo para a alvorada festiva. O bloco de negros e \u00edndios vai crescendo com o avan\u00e7o das horas, seguidos por moradores e turistas, que improvisam vestes vermelhas para se parecer aos Lambe Sujos, ainda que eles sejam vencidos no final da festa pelos Caboclinhos. Uma derrota vitoriosa, diga-se de passagem. \u201cNunca vi um rei ser vencido t\u00e3o altaneiro como o Rei dos Lambe Sujos que sai de cabe\u00e7a erguida, como se n\u00e3o houvesse perdido a batalha\u201d, brinca a antrop\u00f3loga Beatriz G\u00f3is Dantas, doutora pela Universidade Federal de Sergipe, que se aprofundou nos estudos dessa festa entre 1969 e 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A derrota faz parte da narrativa, segundo os guardi\u00f5es da tradi\u00e7\u00e3o, porque quando a festa foi criada pelos negros alforriados as autoridades de ent\u00e3o teriam combinado assim. Se por ventura os Lambe Sujos fossem vitoriosos poderiam estimular os negros que ainda viviam sob o manto da escravid\u00e3o a se revoltarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a resist\u00eancia e a coragem por lutar pela liberdade \u00e9 dos negros, e n\u00e3o dos caboclos, que est\u00e3o a mando dos brancos, estes quase anti-her\u00f3is nessa festa. Samba, nego, branco n\u00e3o vem c\u00e1. Se vier pau h\u00e1 de levar, diz um dos c\u00e2nticos entoados pelos protagonistas do folguedo. \u201cTodo mundo \u00e9 negro aqui\u201d, dizia Jos\u00e9 Luiz, na festa deste ano, com o rosto pintado de preto muito preto, que destacava seus olhos azuis. Os bra\u00e7os continuavam brancos. \u201cA festa \u00e9 para lembrar a escravid\u00e3o, a for\u00e7a do negro, tudo \u00e9 em homenagem a eles\u201d, explica. Luiz, que contemplava de longe o cortejo, ao lado de uma caixa de isopor, com \u00e1gua e cerveja para refrescar os visitantes que estavam sob o sol do meio dia nordestino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Lambe Sujos lembram, de cara, o saci-perer\u00ea, personagem imortalizado por Monteiro Lobato no s\u00e9culo XX. Alguns fumam cachimbo e outros chupam chupeta. Cativam de imediato com seus pandeiros, ganz\u00e1s e tambores, que se combinam num ritmo afro contagiante, m\u00fasica \u201cguerreira e agressiva\u201d, como define Bispo, que toca cu\u00edca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rias hist\u00f3rias alimentam, ainda, a carapu\u00e7a vermelha da cabe\u00e7a. Uma delas \u00e9 que alguns escravos fugitivos, no passado, se fingiam mesmo de saci e pulavam num p\u00e9 s\u00f3 para assustar os que os avistassem na calada da noite. Mestre Z\u00e9 Rolinha diz que n\u00e3o tem nada disso. \u201cOs mais antigos eu n\u00e3o sei. E se soubesse, tamb\u00e9m n\u00e3o diria. As coisas internas do grupo n\u00e3o contamos\u201d, diz ele, fazendo mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quem veja no gorro uma alus\u00e3o a outros elementos subjetivos. \u201cMe pergunto se o formato de toca n\u00e3o tem a ver com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, que tinha como s\u00edmbolo o barrete fr\u00edgio. Como a festa de Laranjeiras \u00e9 um canto de liberdade, n\u00e3o seria imposs\u00edvel&#8230;\u201d, diz a professora Beatriz. A cultura europeia tinha forte influ\u00eancia em Laranjeiras em seus tempos \u00e1ureos.\u201cHavia senhores de engenho que pagavam aulas aos escravos para que eles servissem as visitas falando em franc\u00eas\u201d, conta Evandro Bispo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um personagem controverso se destaca neste teatro a c\u00e9u aberto: o feitor que carrega um chicote de verdade, e distribui chibatadas reais a quem se descuida e desobedece as ordens dos mestres do grupo para o cortejo. Ele leva um clima de tens\u00e3o permanente para o evento. Quem n\u00e3o toma cuidado sai com uma marca vermelha no corpo. Muitos rapazes, embalados pela bebida e a disposi\u00e7\u00e3o de testar seus limites, provocam o feitor com o \u00fanico intuito de serem chicoteados, numa aparente competi\u00e7\u00e3o masculina de resist\u00eancia \u00e0 dor. O efeito dessa cena \u00e9 chocante. Mas comp\u00f5e um certo caos que, de alguma maneira, faz sentido nessa festa. O som do chicote transporta os visitantes para os castigos corporais sofridos pelos principais homenageados da festa: os ancestrais negros que sentiram na pele a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tinta preta e mel de caba\u00fa na pele<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cor dos Lambe Sujos \u00e9 uma atra\u00e7\u00e3o a parte. Um preto escuro, e com um brilho que real\u00e7a ainda mais o tom de pele. Para chegar a ele, a pele \u00e9 revestida primeiro com tinta em p\u00f3. Em seguida, o corpo \u00e9 coberto com mel de caba\u00fa, derivado da cana de a\u00e7\u00facar, que fornece o brilho. Fernando, de 21 anos, cego desde os tr\u00eas, conta que acompanha a festa desde crian\u00e7a. Uma das sensa\u00e7\u00f5es que o conectam a ela \u00e9 o gosto do mel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que um item para valorizar o tom da pele, o mel de caba\u00fa reproduz um costume real dos tempos imperiais. \u201cO mel deixa o corpo grudento e era utilizado pelos escravos fugitivos para colar folhas ao corpo e servir de camuflagem contra seus perseguidores, segundo os relatos orais dos moradores mais antigos da cidade\u201d, diz Evandro Bispo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tr\u00eas reais, interessados em imitar os ancestrais de Laranjeiras faziam fila, no \u00faltimo dia 11, na cal\u00e7ada da casa de um dos moradores que se outorgou a fun\u00e7\u00e3o de lambuzar quem estava disposto a brincar fantasiado. Quem n\u00e3o se atrevia a ficar pintado da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, era marcado do mesmo jeito na hora da mela\u00e7\u00e3o. Uma m\u00e3o no rosto, um abra\u00e7o repentino. E todos na cidade de repente est\u00e3o manchados de preto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 os anos 90 a festa era mantida quase marginalmente, celebrada na periferia da cidade. Em 1969, quando Beatriz come\u00e7ou a estud\u00e1-la, n\u00e3o mais que duas dezenas de brincantes participavam do folguedo, com um p\u00fablico mais modesto. \u201cEla parece ganhar um novo significado diante da valoriza\u00e7\u00e3o da cultura negra das \u00faltimas d\u00e9cadas\u201d, diz ela, que escreveu diversos livros sobre o evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, a festa cresceu, ganhou a cidade toda, o apoio da Igreja cat\u00f3lica local e dos terreiros de candombl\u00e9, inclu\u00eddos no seu enredo, aben\u00e7oando os personagens em alguns atos desta \u00f3pera popular. H\u00e1 quem reclame que o poder p\u00fablico apoia pouco, e s\u00f3 aparece quando tudo est\u00e1 pronto para tirar uma casquinha. Os organizadores se preocupam, ainda, com o aumento do p\u00fablico nos \u00faltimos tempos, que por vezes confunde a tradi\u00e7\u00e3o com uma festa de carnaval. N\u00e3o importa. A festa fica maior a cada dia porque o enredo \u00e9 cativante, a m\u00fasica \u00e9 alegria e os elementos t\u00e3o brasileiros despertam empatia imediata. Laranjeiras \u00e9 um peda\u00e7o da alma do Brasil. No ano que vem tem mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fonte: El Pa\u00eds<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acompanhe o SE Not\u00edcias no <a href=\"https:\/\/twitter.com\/Senoticias\" target=\"_blank\">Twitter <\/a>e no <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PortalSENoticias\" target=\"_blank\">Facebook<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 manh\u00e3 do domingo, dia 11, em Laranjeiras, munic\u00edpio de Sergipe, onde cerca de 70 rapazes com a pele pintada de preto, vestindo gorros e shorts vermelhos, dan\u00e7am ao ritmo das batidas de percuss\u00e3o dos companheiros que batucam seus instrumentos. 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