{"id":50629,"date":"2013-07-20T20:06:29","date_gmt":"2013-07-20T23:06:29","guid":{"rendered":"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/?p=50629"},"modified":"2013-07-22T17:55:18","modified_gmt":"2013-07-22T20:55:18","slug":"telexfree-como-o-caso-traumatizou-uma-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/telexfree-como-o-caso-traumatizou-uma-cidade\/","title":{"rendered":"TelexFree: como o caso traumatizou uma cidade"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Lucas do Rio Verde, cidade pr\u00f3spera de 45 000 habitantes no norte do Mato Grosso, ficou paralisada ap\u00f3s bloqueio de bens das empresas TelexFree e BBom, acusadas de criar pir\u00e2mides financeiras.<\/strong><\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_50630\" style=\"width: 607px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Telex-free-MT20130718-01-size-598.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-50630\" class=\"size-full wp-image-50630\" alt=\" Carro com marca da TelexFree na cidade Lucas do Rio Verde, no estado do Mato Grosso - Ivan Pacheco\" src=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Telex-free-MT20130718-01-size-598.jpg\" width=\"597\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Telex-free-MT20130718-01-size-598.jpg 597w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Telex-free-MT20130718-01-size-598-300x168.jpg 300w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/Telex-free-MT20130718-01-size-598-342x192.jpg 342w\" sizes=\"(max-width: 597px) 100vw, 597px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-50630\" class=\"wp-caption-text\"><br \/>Carro com marca da TelexFree na cidade Lucas do Rio Verde, no estado do Mato Grosso &#8211; Ivan Pacheco<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas do Rio Verde, no norte do Mato Grosso, \u00e9 uma cidade tomada pela ansiedade. Seus 45 000 habitantes poderiam estar usufruindo da riqueza produzida por uma d\u00e9cada pr\u00f3spera de agroneg\u00f3cio. Em vez disso, aguardam o desenrolar da investiga\u00e7\u00e3o que, no \u00faltimo m\u00eas, resultou no bloqueio dos bens das empresas BBom e TelexFree, suspeitas de ter implantado portentosos esquemas de pir\u00e2mide financeira. No pa\u00eds inteiro, estima-se que mais de 1,3 milh\u00e3o de pessoas tenham investido suas economias nesses dois neg\u00f3cios que, tudo indica, usavam a venda de produtos como rastreadores de ve\u00edculos e pacotes de telefonia para encobrir uma falcatrua. S\u00f3 os s\u00f3cios da TelexFree tiveram mais de 6 bilh\u00f5es de reais congelados. Ou seja, os moradores de Lucas do Rio Verde n\u00e3o foram os \u00fanicos a embarcar na prov\u00e1vel arma\u00e7\u00e3o. Mas, na cidade, \u00e9 poss\u00edvel observar de maneira dram\u00e1tica os efeitos do caso. N\u00e3o apenas aqueles que &#8220;investiram&#8221; sentiram o baque. \u201cA economia local quase parou depois do bloqueio. Tudo enfraqueceu como n\u00e3o se via h\u00e1 muito tempo\u201d, conta a promotora do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual do Mato Grosso Fernanda Pawelec, uma das primeiras a investigar a atua\u00e7\u00e3o dessas companhias no pa\u00eds, em janeiro de 2013. Vendedores do com\u00e9rcio varejista ouvidos pela reportagem se mostraram desolados. \u201cO \u00faltimo m\u00eas foi muito dif\u00edcil. Quase ningu\u00e9m compra. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro circulando\u201d, disse a gerente de uma rede varejista local. Como quase todas as pessoas abordadas na cidade, ela preferiu n\u00e3o ter seu nome associado \u00e0 hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 indicadores contundentes da maneira como as pessoas se envolveram nos neg\u00f3cios de TelexFree e BBom. Segundo funcion\u00e1rios da Caixa Econ\u00f4mica Federal ouvidos pelo site de VEJA em Lucas do Rio Verde, o volume de dep\u00f3sitos na poupan\u00e7a caiu 30% no auge da euforia com o esquema, e n\u00e3o se recuperou. Muitas pessoas, al\u00e9m disso, comprometeram todo o sal\u00e1rio em diferentes bancos, levantando dinheiro em empr\u00e9stimos consignados para aplicar nas empresas que, em tese, lhes dariam um retorno extraordin\u00e1rio. O n\u00famero de empr\u00e9stimos continua alto. &#8220;Mas parece que agora as pessoas est\u00e3o pegando dinheiro para rolar outros compromissos&#8221;, diz um funcion\u00e1rio da Caixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Movimentos anormais tamb\u00e9m foram sentidos no mercado imobili\u00e1rio. \u201cAs pessoas vendiam casa, terreno, com\u00e9rcio para investir. Agora, tem gente vendendo im\u00f3veis para pagar as d\u00edvidas\u201d, contou Jos\u00e9 Valdemar Kluge, dono da imobili\u00e1ria Din\u00e2mica, uma das maiores da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucas do Rio Verde n\u00e3o \u00e9 uma cidade pobre. Multinacionais como BR Foods e Cargill dividem espa\u00e7o com grandes produtores agr\u00edcolas. O prefeito Otaviano Pivetta (PDT), de tradicional casta de pol\u00edticos mato-grossenses, tamb\u00e9m \u00e9 presidente da Vanguarda, uma gigante do agroneg\u00f3cio. Ele foi considerado, em 2012, o prefeito mais rico do Brasil, com patrim\u00f4nio declarado de 321 milh\u00f5es de reais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) per capita da cidade em 2010 chegava a 36.000 reais \u2013 maior que o de Rio de Janeiro e Curitiba e um pouco abaixo dos 39.000 reais de S\u00e3o Paulo. O avan\u00e7o da renda se reflete no tamanho do investimento feito nas pir\u00e2mides. \u201cHouve gente que investiu 600 000 reais na TelexFree na cidade\u201d, diz um empres\u00e1rio. Segundo ele, o patamar m\u00ednimo de aportes dos moradores na TelexFree era de 3.000 reais. \u201cOs ricos podem ficar frustrados, n\u00e3o sentem tanto a perda do dinheiro. Os pobres, sim. Muitos est\u00e3o at\u00e9 sem casa\u201d, afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As promessas de ganhos da TelexFree e da BBom faziam brilhar os olhos de todas as classes de investidores. Um gerente de uma loja varejista contou ao site de VEJA que aplicou 30.000 reais de uma s\u00f3 vez na TelexFree \u2013 27.000 sa\u00edram da poupan\u00e7a e 3.000 de um empr\u00e9stimo. Ao final de dois meses, ele conseguiu resgatar 48.000 reais \u2013 uma rentabilidade acumulada 60% (a poupan\u00e7a rende menos de 6% ao ano), que seria improv\u00e1vel at\u00e9 mesmo para o esquema desenhado pelo megainvestidor Bernard Madoff, nos Estados Unidos, e que desmoronou em 2008. A\u00ed reside o problema das pir\u00e2mides. Funcionam bem enquanto poucos sacam seus rendimentos. Mas, se houver uma corrida de resgates, tudo vem abaixo. \u201cQuem n\u00e3o quer ganhar dinheiro f\u00e1cil? No come\u00e7o, parece vantajoso. As promessas s\u00e3o de retornos extraordin\u00e1rios, basta que voc\u00ea traga mais gente para a armadilha&#8221;, diz Isabel de F\u00e1tima Ganzer, superintendente do Procon de Lucas do Rio Verde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda n\u00e3o h\u00e1 qualquer decis\u00e3o da Justi\u00e7a sobre a inidoneidade das empresas investigadas. Os associados \u2013 em sua grande maioria \u2013 bradam com fervor que as firmas s\u00e3o honestas e que o bloqueio de bens \u00e9 quase \u2018criminoso\u2019. Chegaram a protestar em Bras\u00edlia em favor da TelexFree. Est\u00e3o desesperados com a possibilidade de assistir, impotentes, ao seu dinheiro virar p\u00f3. Questionados pela reportagem sobre a idoneidade das empresas, os habitantes de Lucas do Rio Verde se mostraram arredios. Ao mesmo tempo em que defendiam as firmas, mostravam um misto de medo e vergonha. O Minist\u00e9rio P\u00fablico do estado recebeu, at\u00e9 agora, apenas dois pedidos de investiga\u00e7\u00e3o. O \u00f3rg\u00e3o de defesa do consumidor da cidade recebe in\u00fameros telefonemas e visitas de pessoas que buscam informa\u00e7\u00e3o sobre como pegar seu dinheiro de volta. Mas apenas quatro reclama\u00e7\u00f5es foram registradas at\u00e9 a tarde da \u00faltima sexta-feira. Os associados, tamb\u00e9m chamados de &#8220;divulgadores&#8221; das empresas, continuam promovendo reuni\u00f5es de motiva\u00e7\u00e3o \u2013 se autodenominam \u201cfam\u00edlia BBom\u201d e \u201cfam\u00edlia TelexFree\u201d \u2013 mesmo que a Justi\u00e7a os impe\u00e7a de angariar novos membros para a rede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O site de VEJA conversou com um casal, que pediu para se manter an\u00f4nimo na reportagem, cuja ades\u00e3o \u00e0 TelexFree foi feita depois de a empresa ter sido proibida pela Justi\u00e7a de incluir novos nomes em seu sistema. Ela, dona de casa, ele, pedreiro, investiram 15.000 reais com a promessa de receber todo o dinheiro de volta em 90 dias \u2013 al\u00e9m de uma rentabilidade mensal de 9.000 reais. A vendedora, segundo o casal, nada explicou sobre os pacotes de telefonia que s\u00e3o, em teoria, o principal neg\u00f3cio da TelexFree. \u201cSab\u00edamos que tinha muita gente na cidade ganhando dinheiro com isso e pensamos, \u2018por que n\u00e3o?\u2019\u201d, conta a dona de casa. Depois de alguns dias, j\u00e1 a par do bloqueio de bens, o casal tentou entrar em contato com a &#8220;divulgadora&#8221;. Tudo em v\u00e3o. Procurado pela reportagem, o prefeito Otaviano Pivetta n\u00e3o quis dar entrevista por n\u00e3o dispor de muitas informa\u00e7\u00f5es sobre o caso. Em resposta por email, disse: \u201cJogatina \u00e9 sempre assim mesmo. A ilus\u00e3o do ganho f\u00e1cil\u201d.<\/p>\n<p><strong>por Naiara Infante Bert\u00e3o &#8211; Veja<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Lucas do Rio Verde, cidade pr\u00f3spera de 45 000 habitantes no norte do Mato Grosso, ficou paralisada ap\u00f3s bloqueio de bens das empresas TelexFree e BBom, acusadas de criar pir\u00e2mides financeiras. Lucas do Rio Verde, no norte do Mato Grosso, \u00e9 uma cidade tomada pela ansiedade. 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