{"id":32146,"date":"2012-05-13T07:23:49","date_gmt":"2012-05-13T10:23:49","guid":{"rendered":"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/?p=32146"},"modified":"2012-05-14T18:21:39","modified_gmt":"2012-05-14T21:21:39","slug":"morte-ronda-o-quintal-da-transposicao-do-rio-sao-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/morte-ronda-o-quintal-da-transposicao-do-rio-sao-francisco\/","title":{"rendered":"Morte ronda o quintal da transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco"},"content":{"rendered":"<p><a href=\" http:\/\/jconline.ne10.uol.com.br\/canal\/cidades\/geral\/noticia\/2012\/05\/12\/morte-ronda-o-quintal-da-transposicao-41929.php\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #666699;\"><strong>Por Ciara Carvalho\/JCom\u00e9rcio<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<div id=\"attachment_32147\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/83dc55aeb13cc9f621dcbaa80304d506.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-32147\" class=\"size-medium wp-image-32147\" title=\"Seca no Rio Francisco\" src=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/83dc55aeb13cc9f621dcbaa80304d506-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/83dc55aeb13cc9f621dcbaa80304d506-300x201.jpg 300w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/83dc55aeb13cc9f621dcbaa80304d506-342x230.jpg 342w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/83dc55aeb13cc9f621dcbaa80304d506.jpg 770w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-32147\" class=\"wp-caption-text\">Agricultor segura cabe\u00e7a de vaca ca\u00edda no ch\u00e3o, castigada pela fome. (Ricardo Labastier\/JCimagem)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">As not\u00edcias de morte espantam a esperan\u00e7a no Sert\u00e3o de Pernambuco. Onde se chega, o cheiro de mis\u00e9ria espalha-se pela terra esturricada. Vive-se de contar bicho morto, chorar o feij\u00e3o perdido, esperar por uma \u00e1gua que n\u00e3o vem. No quintal do agricultor Cl\u00e1udio Jos\u00e9 da Silva, 36 anos, a humilha\u00e7\u00e3o \u00e9 maior. A vaca esqu\u00e1lida, de t\u00e3o fraca, desistiu de comer. Bicho e homem n\u00e3o precisavam passar por isso. A poucos quil\u00f4metros dali, a bilion\u00e1ria obra da transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco vende a promessa de um Sert\u00e3o altivo, produtivo, com o qual Cl\u00e1udio j\u00e1 cansou de sonhar. \u201cA obra t\u00e1 parada. Esse ano t\u00e1 perdido de tudo. A gente veio para c\u00e1 porque disseram que a transposi\u00e7\u00e3o ia come\u00e7ar por aqui. At\u00e9 agora, n\u00e3o serviu de nada\u201d, lamenta o homem, enquanto ajeita a corda que segura o pesco\u00e7o do bicho ca\u00eddo. Um derradeiro esfor\u00e7o para evitar que a morte chegue mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cl\u00e1udio espia o futuro enfiado no atraso. O Assentamento Curralinho do Angico, a comunidade onde mora, na zona rural de Floresta, munic\u00edpio no Sert\u00e3o do S\u00e3o Francisco, fica pr\u00f3ximo \u00e0 Barragem de Areias, a primeira a ser inundada pelas \u00e1guas do Velho Chico. O caminho para o assentamento margeia o extenso canal de concreto que permitir\u00e1 o milagre da transposi\u00e7\u00e3o. A grandiosidade da obra incompleta mais oprime que conforta. \u201cTanto dinheiro gasto e a gente aqui morrendo de sede\u201d, revolta-se o agricultor. Todos os a\u00e7udes da regi\u00e3o est\u00e3o secos. Os que ainda carregam uma laminha s\u00e3o uma armadilha fatal para os bichos. Atr\u00e1s do fio de \u00e1gua, os animais ficam atolados no lama\u00e7al e viram comida para os urubus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia em que a equipe do JC visitou o assentamento, chegou com a not\u00edcia de mais uma baixa. \u201cUm cavalo foi achado morto no a\u00e7ude de l\u00e1, hoje de manh\u00e3\u201d, avisa, ainda no Centro da cidade, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Floresta, Elias Eug\u00eanio da Silva. Encontramos o bicho com o corpo coberto de lama e cercado de urubus. \u201cDeve ter morrido h\u00e1 pouco tempo mesmo\u201d, confirma o sindicalista. Em torno do a\u00e7ude quase seco, as aves pretas faziam nova vig\u00edlia, \u00e0 espera de mais uma presa. A fome e a sede dizimaram o rebanho. \u201cFloresta possu\u00eda cerca de 250 mil caprinos e ovinos. Com os dois anos de estiagem, esse n\u00famero foi reduzido \u00e0 metade\u201d, contabiliza o presidente do sindicato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SOM POR FARELO &#8211;<\/strong> Para quem vive de quase nada, manter em p\u00e9 os poucos animais que ainda resistem \u00e9 desesperador. Maria de F\u00e1tima Gomes, 57, chegou ao extremo. Vendeu geladeira, aparelho de som. Trocou tudo por farelo. O saco com 50 quilos de ra\u00e7\u00e3o custa R$ 60 e o fiado no armaz\u00e9m j\u00e1 passava dos R$ 2 mil. \u201cS\u00f3 podia pegar mais ra\u00e7\u00e3o, se pagasse. Em casa, s\u00f3 ficaram as camas. Era isso ou ver os bichos se acabarem de vez.\u201d Maria de F\u00e1tima mora no Riacho do Ouro, uma das \u00e1reas de Floresta mais castigadas. O vizinho dela, o agricultor Manoel Afonso dos Santos, diz que nos seus 82 anos de vida nunca viu seca t\u00e3o braba. Para espantar o fedor de mais uma vaca morta, teve que queimar o bicho, largado na beira da estrada. Na barriga da vaca, tinha at\u00e9 saco pl\u00e1stico e resto de roupa. O desespero do homem \u00e9 o mesmo do animal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a transposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha sido pensada para matar, prioritariamente, a sede do pequeno agricultor, quem v\u00ea o sofrimento de perto n\u00e3o aceita a exclus\u00e3o. \u201c\u00c9 onde o governo est\u00e1 colocando bilh\u00f5es de reais. Ent\u00e3o vamos exigir que ela traga algum benef\u00edcio para os mais pobres\u201d, diz o presidente do sindicato rural de Floresta. No fim deste m\u00eas, ele se junta a outros l\u00edderes do semi\u00e1rido e vai at\u00e9 Bras\u00edlia cobrar \u00e0 presidente Dilma Rousseff a conclus\u00e3o da obra gigantesca, t\u00e3o secular quanto o drama da seca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensada pela primeira vez no Brasil de Dom Pedro II, em 1847, a transposi\u00e7\u00e3o se arrasta, sem fim, assim como os relatos do flagelo sertanejo. Na d\u00e9cada de 50, custaria cerca de US$ 300 milh\u00f5es. D\u00e9cadas se passaram, o projeto foi refeito, ampliado, e hoje, a conta j\u00e1 chega a R$ 8,2 bilh\u00f5es. O soci\u00f3logo Ant\u00f4nio Barbosa, coordenador de um dos programas da entidade Articula\u00e7\u00e3o para o Semi\u00e1rido (ASA), que re\u00fane ONGs que atuam na regi\u00e3o, diz que a primeira not\u00edcia de estiagem remonta aos tempos do descobrimento do Brasil, em 1559, no territ\u00f3rio que atualmente \u00e9 ocupado pelo Estado da Bahia. De l\u00e1 para c\u00e1, ele afirma que j\u00e1 foram registradas nada menos do que 72 secas. Algumas entraram para a hist\u00f3ria como as de 1877, 1915, 1952 e, mais recentemente, a de 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPodemos dizer que a deste ano \u00e9 a maior deste s\u00e9culo, a primeira grande estiagem do per\u00edodo p\u00f3s-ditadura. N\u00e3o h\u00e1 desculpa para o governo n\u00e3o ter se preparado com a\u00e7\u00f5es estruturadoras, que se antecipassem ao per\u00edodo da estiagem\u201d, afirma o soci\u00f3logo, numa cobran\u00e7a t\u00e3o antiga quanto leg\u00edtima. Como as a\u00e7\u00f5es novamente n\u00e3o vieram, o cortejo da calamidade reproduz os velhos retratos de sempre. Na estrada do S\u00edtio Boa Rama, zona rural de Bodoc\u00f3, no Sert\u00e3o do Araripe, a carro\u00e7a carrega os baldes de \u00e1gua tirada do a\u00e7ude barrento e distante. Quem guia o cavalo \u00e9 Leandro, um garoto, meio t\u00edmido meio desconfiado, de apenas 12 anos. Ele n\u00e3o gosta de foto. O pai, Edmilson Rodrigues de Freitas, 40, vai sentado atr\u00e1s, pendurado na carro\u00e7a. Pai e filho engolidos pelo monstro da seca, um flagelo que atravessou os s\u00e9culos sem nunca ter sido domado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ciara Carvalho\/JCom\u00e9rcio As not\u00edcias de morte espantam a esperan\u00e7a no Sert\u00e3o de Pernambuco. Onde se chega, o cheiro de mis\u00e9ria espalha-se pela terra esturricada. Vive-se de contar bicho morto, chorar o feij\u00e3o perdido, esperar por uma \u00e1gua que n\u00e3o vem. No quintal do agricultor Cl\u00e1udio Jos\u00e9 da Silva, 36 anos, a humilha\u00e7\u00e3o \u00e9 maior. 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