{"id":24002,"date":"2012-02-06T06:11:17","date_gmt":"2012-02-06T09:11:17","guid":{"rendered":"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/?p=24002"},"modified":"2012-02-07T06:28:50","modified_gmt":"2012-02-07T09:28:50","slug":"eu-sou-viciado-em-sexo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/eu-sou-viciado-em-sexo\/","title":{"rendered":"Como identificar e tratar o v\u00edcio em sexo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O drama de quem perdeu a fam\u00edlia, o emprego e at\u00e9 a sa\u00fade para atender a um desejo insaci\u00e1vel e doentio. Como identificar e tratar esse dist\u00farbio do prazer<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ricardo<\/strong>, engenheiro carioca de 41 anos, passou grande parte de seus anos de faculdade na noite. Sa\u00eda desde ter\u00e7a-feira e se achava um garanh\u00e3o: fazia sucesso com as amigas dos amigos. Quando n\u00e3o havia mais a quem ser apresentado, Ricardo passou a dedicar cada vez mais tempo a encontrar novas parceiras. Os amigos, as conversas e mesmo os estudos foram ficando para tr\u00e1s. A qualquer lugar que ia, sua preocupa\u00e7\u00e3o era encontrar mulheres. A urg\u00eancia era t\u00e3o grande que um dia foi pego por um policial fazendo sexo com uma mulher dentro do carro, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Por pouco n\u00e3o foi parar na delegacia. Desconfiou que tinha um problema quando a fixa\u00e7\u00e3o no sexo o levou a trancar a faculdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/716_beijo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-24003\" title=\"716_beijo\" src=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/716_beijo.jpg\" alt=\"\" width=\"589\" height=\"763\" srcset=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/716_beijo.jpg 589w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/716_beijo-231x300.jpg 231w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/716_beijo-342x443.jpg 342w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/716_beijo-300x388.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 589px) 100vw, 589px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2022 M\u00e1rio<\/strong>, um profissional de sa\u00fade paranaense de 40 anos, tinha um bom relacionamento com a mulher, mas sempre se sentiu atra\u00eddo por homens. Nunca transformara o desejo em pr\u00e1tica, at\u00e9 que, num bate-papo on-line, marcou encontro com um desconhecido. Depois do primeiro, seguiram-se v\u00e1rios nos dois anos seguintes. Em uma semana, foram oito. M\u00e1rio nem sabia seus nomes. Envergonhava-se daquele comportamento e o escondia. Um dia, descuidou-se. Deixou o programa de chat aberto no computador. A mulher descobriu e, arrasada, pediu a separa\u00e7\u00e3o. Depois do div\u00f3rcio, M\u00e1rio entrou em depress\u00e3o, come\u00e7ou a beber e, com medo de se tornar dependente de \u00e1lcool, decidiu buscar ajuda. Descobriu no Alco\u00f3licos An\u00f4nimos que seu problema n\u00e3o era a bebida, mas o sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2022 Hugo<\/strong>, um corretor de seguros de 40 anos, de Fortaleza, tentou tr\u00eas vezes seduzir a pr\u00f3pria sogra. Colocou a culpa na bebida, mas era s\u00f3 a fantasia crescendo. Quando ia para a praia, tinha de se masturbar no mar e, mesmo casado, tinha rela\u00e7\u00f5es com v\u00e1rias mulheres, prostitutas entre elas. Chegou a pagar passagem de avi\u00e3o e hospedagem para uma delas visit\u00e1-lo. Um dia, voltando de uma festa em que n\u00e3o tinha ficado com ningu\u00e9m, decidiu passar pela Avenida Beira-Mar, ponto de programas. Com o cart\u00e3o de cr\u00e9dito estourado e sem dinheiro no banco, foi parar na casa de uma prostituta na favela e pagou com um t\u00edquete-refei\u00e7\u00e3o. Nesse momento, percebeu que sua rela\u00e7\u00e3o com o sexo n\u00e3o era como a de seus amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2022 Caio<\/strong>, um produtor musical de 48 anos, de S\u00e3o Paulo, viu sua vida sexual com a mulher murchar depois do nascimento da primeira filha. Na mesma \u00e9poca, suas viagens a trabalho se intensificaram. Longe de casa, num ambiente de festas, drogas e sexo, come\u00e7ou a ter aventuras. Durante a semana, voltava para a fam\u00edlia e se acalmava. Mas a ansiedade por novos encontros aumentou, e Caio chegou a se hospedar sozinho num hotel em S\u00e3o Paulo em busca de mulheres. Numa das viagens de trabalho, numa festa, bebeu um pouco a mais e acabou ficando com um homem, mesmo sem nunca ter tido experi\u00eancias homossexuais. Sua mulher desconfiou quando descobriu uma doen\u00e7a ven\u00e9rea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2022 C\u00e1tia<\/strong>, uma economista de 54 anos que mora no Rio de Janeiro, n\u00e3o teve muitos parceiros. Mas sua vida era tragada pelo sexo dentro dos relacionamentos. Passou uma semana trancada no quarto, deixando para tr\u00e1s o trabalho num \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico e o cuidado com as duas filhas. A necessidade de sexo se sobrepunha at\u00e9 \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas de parar de transar durante tratamentos ginecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es intensas e destrutivas, C\u00e1tia perdeu o controle sobre o pr\u00f3prio desejo. Com o fim do \u00faltimo relacionamento, passou a se masturbar dirigindo e tamb\u00e9m no ambiente de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depend\u00eancia de sexo, comportamento sexual compulsivo e transtorno hipersexual. H\u00e1 d\u00favidas sobre como classificar o dist\u00farbio de Ricardo, M\u00e1rio, Hugo, Caio e C\u00e1tia (os nomes s\u00e3o falsos), que acabaram buscando ajuda m\u00e9dica ou psicol\u00f3gica. O debate sobre o que os aflige acontece h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. A primeira refer\u00eancia vem do psiquiatra alem\u00e3o Richard von Krafft-Ebing, em seu livro Psicopatias sexuais, de 1886. Na obra, ele tenta categorizar o que chama de \u201cdesvios sexuais\u201d. Discute a homossexualidade, o sadismo, o fetichismo e o que antigamente se chamava de ninfomania, o excesso feminino de sexo. Muitos dos comportamentos que Krafft-Ebing descreveu deixaram de ser considerados patol\u00f3gicos ao longo dos anos, das mudan\u00e7as sociais e do avan\u00e7o das pesquisas. O caso mais not\u00f3rio \u00e9 a homossexualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o \u201cdesejo sexual excessivo\u201d entrou para o rol do C\u00f3digo Internacional de Doen\u00e7as, publicado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. A quarta edi\u00e7\u00e3o do Manual estat\u00edstico de doen\u00e7as mentais (DSM, na sigla em ingl\u00eas), a refer\u00eancia dos diagn\u00f3sticos psiqui\u00e1tricos, n\u00e3o tem uma categoria pr\u00f3pria para o problema. Cita o comportamento sexual excessivo entre os \u201ctranstornos sexuais n\u00e3o especificados\u201d. A pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o do DSM, prevista para 2013, dever\u00e1 incluir uma men\u00e7\u00e3o a \u201ctranstorno hipersexual\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 pouco prov\u00e1vel, por\u00e9m, que a nova classifica\u00e7\u00e3o encerre o debate. Por dois motivos. Primeiro, porque sempre foi e ser\u00e1 dif\u00edcil estabelecer os par\u00e2metros de normalidade do comportamento sexual humano. N\u00e3o existe um limite ideal para o n\u00famero de orgasmos ou para o tempo gasto com fantasias ou rela\u00e7\u00f5es sexuais. Segundo, porque a quantidade de sexo, como sugere o termo \u201chipersexualidade\u201d, n\u00e3o \u00e9 o fator decisivo para o diagn\u00f3stico. \u201cA depend\u00eancia sexual n\u00e3o tem a ver com a intensidade da atividade sexual. Nem com sua frequ\u00eancia\u201d, disse a \u00c9POCA o psic\u00f3logo americano Patrick Carnes, fundador do International Institute for Trauma and Addiction<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professionals e um dos pioneiros do estudo da depend\u00eancia sexual. \u201cA principal marca do v\u00edcio s\u00e3o as consequ\u00eancias que algu\u00e9m sofre por causa de sua atividade sexual.\u201d Se a pessoa perde o emprego, para de estudar ou se afasta da fam\u00edlia por causa do sexo, \u00e9 sinal de que h\u00e1 algo errado. \u201cQuando algu\u00e9m passa todo o tempo pensando em sexo, planejando, fazendo e se arrependendo, em vez de trabalhar, curtir a fam\u00edlia, os amigos e outras atividades prazerosas, \u00e9 um problema\u201d, afirma Carnes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sexo, crack e coca\u00edna<\/strong><br \/>\nRicardo, M\u00e1rio, Hugo, Caio e C\u00e1tia consideram-se dependentes de sexo. Em muitos momentos, referem-se ao sexo como os dependentes qu\u00edmicos falam do \u00e1lcool ou da coca\u00edna, sempre exigindo doses mais altas em intervalos cada vez menores. \u201cFoi como injetar droga na veia\u201d, diz Ricardo. \u201cCada um acha o barato que encaixa melhor.\u201d Ou M\u00e1rio: \u201cPrometia que n\u00e3o faria mais, mas n\u00e3o conseguia. Era infinitamente mais forte que eu\u201d. Hugo diz que, na recupera\u00e7\u00e3o, teve s\u00edndrome de abstin\u00eancia, com ins\u00f4nia. \u201cEu me sentia ref\u00e9m. Era uma vontade intermin\u00e1vel que n\u00e3o se satisfazia\u201d, diz C\u00e1tia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel depender de sexo como de coca\u00edna ou crack? Para alguns cientistas, apenas o v\u00edcio gerado por subst\u00e2ncias externas pode ser chamado de depend\u00eancia. Outros afirmam que as pessoas podem viciar-se em sexo e outros comportamentos. As altera\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas do c\u00e9rebro durante o ato sexual justificam essa interpreta\u00e7\u00e3o mais ampla da depend\u00eancia. O orgasmo ativa, no c\u00e9rebro, o mesmo circuito do prazer que as drogas e, como elas, libera a mesma subst\u00e2ncia neurotransmissora, a dopamina. O uso repetido de drogas pode modificar a estrutura e a fun\u00e7\u00e3o desse circuito cerebral, gerando as caracter\u00edsticas da depend\u00eancia: aumento de toler\u00e2ncia \u00e0 subst\u00e2ncia, crise de abstin\u00eancia, compuls\u00e3o e reca\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda n\u00e3o h\u00e1 estudos que mostrem que o sexo seja capaz de promover esse tipo de altera\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica. Mas h\u00e1 motivos para acreditar que fatores biol\u00f3gicos tenham participa\u00e7\u00e3o no excesso de sexo. Alguns tipos de dem\u00eancia podem causar um aumento do desejo sexual. Certos rem\u00e9dios usados no tratamento de mal de Parkinson tamb\u00e9m podem elevar a libido. Eles alteram o efeito da dopamina, o mesmo neurotransmissor do prazer sexual. \u201cIsso refor\u00e7a a ideia de que existe algo diferente no funcionamento do c\u00e9rebro de quem \u00e9 compulsivo por sexo\u201d, diz o psiquiatra Marco de Tubino Scanavino, respons\u00e1vel pelo Ambulat\u00f3rio de Impulso Sexual Excessivo do Hospital das Cl\u00ednicas (HC), em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A qu\u00edmica do c\u00e9rebro \u00e9, por\u00e9m, apenas parte da explica\u00e7\u00e3o para o problema de Ricardo, M\u00e1rio, Hugo, Caio e C\u00e1tia. Assim como nem todas as pessoas que experimentam drogas ficam dependentes, apenas uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o sexualmente ativa desenvolve uma compuls\u00e3o por sexo. O psic\u00f3logo Patrick Carnes estima que 3% a 6% das pessoas se enquadrem nessa categoria. Isso significaria, no Brasil, mais de 9 milh\u00f5es de pessoas. A grande maioria homens \u2013 o sexo masculino representa entre 80% e 90% dos dependentes, segundo estudos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostar de fazer sexo<\/strong> \u2013 e fazer com muita frequ\u00eancia \u2013 n\u00e3o significa uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia com esse tipo de prazer. Celebridades que j\u00e1 se declararam \u201cviciadas em sexo\u201d, como o rapper Kanye West, o ator Michael Douglas, o golfista Tiger Woods e a apresentadora Adriane Galisteu (leia o quadro ao lado), dificilmente se encaixam nesse perfil. \u201cEssas celebridades que se dizem viciadas em sexo est\u00e3o banalizando o conceito\u201d, afirma o psic\u00f3logo Thiago de Almeida, especialista em quest\u00f5es de relacionamento. Em geral, os famosos t\u00eam muito mais oportunidades que algu\u00e9m comum de fazer sexo porque s\u00e3o mais admirados e assediados. E podem, se quiserem, aproveitar-se disso, relacionando-se com v\u00e1rios parceiros. Eles podem at\u00e9 se apropriar do diagn\u00f3stico para justificar escapadas conjugais e tentar reverter uma crise de imagem. Foi o que fez o parlamentar americano Anthony Wiener, que procurou tratamento depois que suas fotos e mensagens de conte\u00fado sexual para usu\u00e1rias do Twitter foram descobertas. Esse comportamento n\u00e3o torna essas pessoas dependentes, no sentido cl\u00ednico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como identificar a depend\u00eancia?<\/strong><br \/>\n\u201cTer uma express\u00e3o maior da sexualidade, em si, n\u00e3o \u00e9 um problema\u201d, diz o psic\u00f3logo Oswaldo Rodrigues Junior, diretor da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana. \u201cO problema fica flagrante quando essa sexualidade n\u00e3o est\u00e1 funcionando a favor da pessoa e prejudica outras \u00e1reas da vida.\u201d Ricardo patinou no in\u00edcio da carreira \u2013 justamente no per\u00edodo em que deveria ter mais g\u00e1s para trabalhar \u2013 porque estava totalmente fixado em sexo. Para manter a busca por parceiros, M\u00e1rio terceirizou o gerenciamento de sua cl\u00ednica, foi passado para tr\u00e1s e perdeu pacientes. Por causa do v\u00edcio, Hugo foi preterido em diversas oportunidades de promo\u00e7\u00e3o e acabou demitido da empresa multinacional em que trabalhava. Caio n\u00e3o teve problemas no trabalho, mas suas mentiras e trai\u00e7\u00f5es por pouco n\u00e3o arruinaram seu conv\u00edvio com a fam\u00edlia. C\u00e1tia foi ao fundo do po\u00e7o emocional com o fim do \u00faltimo namoro, h\u00e1 sete anos, e n\u00e3o se envolveu mais com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem sempre quem sofre de depend\u00eancia sexual consegue identific\u00e1-la com facilidade. \u201cEm geral, o comportamento compulsivo come\u00e7a no final da adolesc\u00eancia, in\u00edcio da vida adulta, e vai se agravando ao longo dos anos. Por isso, \u00e9 dif\u00edcil reconhec\u00ea-lo logo de cara\u201d, diz o psiquiatra Marco Scanavino. O filme Shame (Vergonha), que estrear\u00e1 no Brasil em 2 de mar\u00e7o, mostra esse processo de degrada\u00e7\u00e3o relacionado \u00e0 depend\u00eancia sexual. No in\u00edcio da trama, Brandon Sullivan (interpretado por Michael Fassbender) \u00e9 um jovem nova-iorquino de 30 e poucos anos, bem-sucedido, boa-pinta, que paquera as mo\u00e7as no metr\u00f4 e conquista as gatinhas da balada. \u00c0 medida que o enredo avan\u00e7a, Sullivan revela-se incapaz de criar rela\u00e7\u00f5es com outras pessoas e de conter seus impulsos sexuais. Esse descontrole, como anuncia o tom sombrio do filme, leva-o a consequ\u00eancias tr\u00e1gicas. O diretor Steve McQueen foge dos julgamentos morais simplificados. O ponto principal do filme n\u00e3o \u00e9 o comportamento sexual de Sullivan, que recorre \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, \u00e0 pornografia on-line, \u00e0 masturba\u00e7\u00e3o e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es casuais. Mas sim a insatisfa\u00e7\u00e3o que permanece mesmo depois de tanto sexo. \u00c9 comum algu\u00e9m com compuls\u00e3o sexual sentir um vazio, mal-estar ou des\u00e2nimo assim que o orgasmo termina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses sentimentos negativos ap\u00f3s o ato refletem, em geral, duas situa\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas, segundo os psiquiatras. A primeira \u00e9 o uso inadequado do sexo. As rela\u00e7\u00f5es sexuais s\u00e3o um meio de reprodu\u00e7\u00e3o, uma fonte de prazer e uma forma de estreitar a rela\u00e7\u00e3o com o parceiro. E n\u00e3o uma forma de buscar aprova\u00e7\u00e3o do parceiro, diminuir a ansiedade antes de uma prova ou descarregar depois de uma bronca do chefe. Eventualmente, o sexo pode at\u00e9 cumprir essas fun\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o pode ser a \u00fanica estrat\u00e9gia do indiv\u00edduo para lidar com essas quest\u00f5es corriqueiras. \u201cO sexo, em si, n\u00e3o \u00e9 bom ou ruim\u201d, afirma o psiquiatra Aderbal Vieira Junior, coordenador do Ambulat\u00f3rio de Tratamento do Sexo Patol\u00f3gico da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo. \u201cO que faz diferen\u00e7a \u00e9 o sentido que atribu\u00edmos a ele. E \u00e9 esse sentido que os pacientes precisam resgatar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O produtor Caio descobriu, em sess\u00f5es de terapia, os motivos por tr\u00e1s de suas escapadas. \u201cTinha a ver com uma busca por aprova\u00e7\u00e3o e sucesso\u201d, diz. \u201cPrecisava seduzir as meninas para me sentir vitorioso.\u201d A economista C\u00e1tia concluiu, em sess\u00f5es do grupo Dependentes de Amor e Sexo An\u00f4nimos (Dasa), que trocava sexo por afeto com seus parceiros, em rela\u00e7\u00f5es destrutivas. \u201cUsava o sexo para me automedicar\u201d, afirma Hugo. Ele se refere \u00e0s altera\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas provocadas pelo sexo em seu c\u00e9rebro. Num processo semelhante ao que ocorre com os dependentes qu\u00edmicos, Hugo precisava da \u201cdroga\u201d n\u00e3o para ficar bem, mas para se sentir apenas normal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sexo entrou cedo na vida de Hugo. Cedo demais. Quando tinha 5 anos, a filha de um casal amigo de seus pais, ent\u00e3o com 17, 18 anos, abusou dele. Embora n\u00e3o seja regra, o abuso sexual na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia pode aumentar a predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 compuls\u00e3o sexual na vida adulta. Outro fator de risco, segundo estudos, \u00e9 ter um hist\u00f3rico de depend\u00eancia pr\u00f3prio ou na fam\u00edlia. Esse foi o caso de Ricardo, cujo pai era alco\u00f3latra, e de C\u00e1tia, que tem tr\u00eas irm\u00e3os dependentes qu\u00edmicos. Ser compulsivo em outros comportamentos \u2013 como compras ou comida \u2013 tamb\u00e9m aumenta as chances, assim como ter outras condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas, como transtorno de ansiedade ou de deficit de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do uso inadequado do sexo, a segunda causa para sentimentos negativos ap\u00f3s o ato sexual \u00e9 o descasamento entre o comportamento da pessoa e seus pr\u00f3prios valores. \u201cTinha uma atitude que n\u00e3o queria ter, mas n\u00e3o conseguia conter, e me sentia mal depois\u201d, diz Hugo sobre as trai\u00e7\u00f5es. Essa falha em atender \u00e0s expectativas internas \u00e9 uma fonte de estresse e mal-estar. Arrependimento, culpa e vergonha s\u00e3o palavras comuns entre os compulsivos para descrever o que sentem depois de fantasiar, se masturbar ou trair. Mesmo olhar pornografia ou se excitar no banheiro despertam essa rea\u00e7\u00e3o negativa. Apesar de menos danosos para os relacionamentos do que uma trai\u00e7\u00e3o, esses comportamentos s\u00e3o problem\u00e1ticos para quem tem depend\u00eancia, porque mant\u00eam o padr\u00e3o compulsivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter sentimentos ruins relacionados ao sexo \u00e9 um importante crit\u00e9rio para o diagn\u00f3stico da depend\u00eancia sexual. \u201c\u00c9 preciso cuidado para n\u00e3o emprestar o discurso m\u00e9dico ao discurso moral\u201d, diz o psiquiatra Aderbal Junior. \u201cO padr\u00e3o aparentemente disfuncional em rela\u00e7\u00e3o ao sexo pode n\u00e3o ser depend\u00eancia, mas escolha.\u201d Para ele, o trabalho do profissional de sa\u00fade \u00e9 ajudar as pessoas a adequar seus comportamentos a seus projetos de vida \u2013 n\u00e3o \u00e0s regras morais da sociedade. Segundo esse racioc\u00ednio, s\u00f3 \u00e9 dependente sexual quem se reconhece como tal \u2013 e procura ajuda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem est\u00e1 em d\u00favida, os m\u00e9dicos brasileiros adaptaram um teste elaborado pelo psic\u00f3logo americano Patrick Carnes nos anos 1980 (fa\u00e7a o teste abaixo). A escala \u00e9 usada pelos profissionais de sa\u00fade para levantar ind\u00edcios do problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pornografia On-Line<\/strong><br \/>\nEm grande parte das vezes, n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio dependente quem procura socorro. Segundo um estudo do psiquiatra americano Stephen Levine que ser\u00e1 publicado neste m\u00eas na revista Neuropsychiatry, os homens \u2013 a maioria entre os compulsivos sexuais \u2013 acabam indo buscar ajuda intimados pelas parceiras. Foi o caso de Caio, que chegou ao psiquiatra por indica\u00e7\u00e3o do ginecologista que atendeu sua mulher. Ela tinha ido fazer o tratamento para a doen\u00e7a ven\u00e9rea que o marido lhe transmitira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos sinais que merecem aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o uso de pornografia, especialmente on-line. Alguns especialistas chegaram a dizer que o mundo digital \u00e9 o \u201ccrack da compuls\u00e3o sexual\u201d. Mas a internet, sozinha, n\u00e3o \u00e9 capaz de causar uma depend\u00eancia de sexo. \u201cA pornografia na internet e a masturba\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3s, n\u00e3o s\u00e3o um problema\u201d, diz Carnes. A facilidade de acesso a conte\u00fado adulto pode, \u00e9 claro, ser tentadora para quem j\u00e1 tem dificuldade de controlar seus impulsos. Hugo come\u00e7ou a frequentar com sua mulher um grupo de reflex\u00e3o de casais na igreja. V\u00e1rias vezes chegava atrasado porque n\u00e3o conseguia sair de casa a tempo. Ficava navegando por p\u00e1ginas pornogr\u00e1ficas. Desde que entrou para o Dasa, decidiu usar o computador apenas quando tem algu\u00e9m por perto. No grupo an\u00f4nimo, os integrantes s\u00e3o incentivados a analisar o pr\u00f3prio comportamento e a estabelecer estrat\u00e9gias para lidar com a compuls\u00e3o num programa de 12 passos, nos moldes do criado pelos Alco\u00f3licos An\u00f4nimos na d\u00e9cada de 1930, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m em recupera\u00e7\u00e3o no Dasa, o paranaense M\u00e1rio deixou de usar identidades falsas na rede. Era com uma conta secreta que ele marcava seus encontros com outros homens. No in\u00edcio, M\u00e1rio at\u00e9 tentou falar sobre seu desejo por homens com a mulher, mas ela n\u00e3o quis ouvir. \u201cTemos um ditado na irmandade: o tamanho de sua compuls\u00e3o \u00e9 o tamanho de seu segredo\u201d, afirma M\u00e1rio. \u201cComo n\u00e3o podia falar, como tinha de ficar em sigilo, aquilo era uma fonte de sofrimento, vergonha e ansiedade.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das principais dificuldades para o tratamento adequado do v\u00edcio em sexo \u00e9 a falta de um interlocutor para falar do problema. H\u00e1 poucos centros de atendimento especializado, como o Ambulat\u00f3rio de Impulso Sexual Excessivo do Hospital das Cl\u00ednicas e o Programa de Orienta\u00e7\u00e3o e Atendimento a Dependentes da Unifesp, ambos em S\u00e3o Paulo, e poucos profissionais de sa\u00fade que saibam lidar com o tema. \u201cPor isso, muitas vezes grupos como o Dasa acabam sendo a \u00fanica alternativa\u201d, afirma o psic\u00f3logo Oswaldo Rodrigues Junior.<br \/>\nCom mais informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis a respeito da depend\u00eancia sexual, \u00e9 prov\u00e1vel que pessoas como Ricardo, M\u00e1rio, Hugo, Caio e C\u00e1tia busquem tratamento mais cedo. E possam falar mais abertamente de seu problema. \u201cQuando se fala em compuls\u00e3o sexual, as pessoas levam para a brincadeira ou para o lado moral\u201d, diz Hugo. \u201cMuitos ainda dizem que n\u00e3o existe, mas s\u00f3 quem viveu sabe como \u00e9 ruim.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 dependente de sexo?<\/strong><br \/>\nA vers\u00e3o brasileira da escala criada pelo especialista americano Patrick Carnes, em 1989, ajuda as pessoas a ter uma ideia de quanto seu pr\u00f3prio comportamento sexual \u00e9 ou n\u00e3o saud\u00e1vel<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\" http:\/\/revistaepoca.globo.com\/vida\/noticia\/2012\/02\/eu-sou-viciado-em-sexo.html\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #0000ff;\"><strong>Meia mais em \u00c9poca<\/strong><\/span><br \/>\n<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O drama de quem perdeu a fam\u00edlia, o emprego e at\u00e9 a sa\u00fade para atender a um desejo insaci\u00e1vel e doentio. 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