{"id":147708,"date":"2025-05-13T16:23:47","date_gmt":"2025-05-13T19:23:47","guid":{"rendered":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/?p=147708"},"modified":"2025-05-13T16:23:47","modified_gmt":"2025-05-13T19:23:47","slug":"do-questionario-da-revista-capricho-ao-tiktok-o-perigoso-jogo-do-autodiagnostico-nas-redes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/do-questionario-da-revista-capricho-ao-tiktok-o-perigoso-jogo-do-autodiagnostico-nas-redes-sociais\/","title":{"rendered":"Do question\u00e1rio da Revista Capricho ao TikTok: o perigoso jogo do autodiagn\u00f3stico nas redes sociais"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Adriana Meneses*<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 90, era comum ver adolescentes com uma edi\u00e7\u00e3o da Revista Capricho nas m\u00e3os, preenchendo question\u00e1rios que prometiam revelar tra\u00e7os de personalidade, signos compat\u00edveis ou mesmo prever o futuro amoroso. Era tudo muito divertido e, no fundo, inofensivo. Esses testes cumpriam um papel simb\u00f3lico importante: ajudavam a lidar com d\u00favidas t\u00edpicas da adolesc\u00eancia e a buscar sentido sobre si mesmas e o mundo ao redor. Hoje, a l\u00f3gica parece a mesma, mas com outra roupagem \u2014 e consequ\u00eancias muito mais s\u00e9rias. Os question\u00e1rios de revista deram lugar aos v\u00eddeos no TikTok e aos posts virais no Instagram, enquanto os temas giram em torno de transtornos mentais. A diferen\u00e7a \u00e9 que, agora, muitas pessoas est\u00e3o usando essas postagens como base para se autodiagnosticar, criando um cen\u00e1rio preocupante para a sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica cl\u00ednica, tenho recebido cada vez mais pacientes que j\u00e1 chegam ao consult\u00f3rio com um suposto diagn\u00f3stico em m\u00e3os. &#8220;Eu tenho TDAH&#8221;, &#8220;Tenho certeza que sou borderline&#8221;, &#8220;Estou com ansiedade generalizada&#8221; \u2014 s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es ditas com convic\u00e7\u00e3o, mas quase sempre baseadas em conte\u00fados das redes sociais. Quando pergunto como chegaram a essa conclus\u00e3o, as respostas geralmente envolvem v\u00eddeos de influenciadores, listas de sintomas compartilhadas no Instagram ou relatos em f\u00f3runs e grupos virtuais. O mais alarmante \u00e9 que, em muitos casos, essas pessoas j\u00e1 trazem tamb\u00e9m sugest\u00f5es de medicamentos: \u201cOuvi dizer que tal rem\u00e9dio \u00e9 \u00f3timo, acho que preciso tomar\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental reconhecer que esse movimento parte de algo leg\u00edtimo: a tentativa de nomear um sofrimento, de encontrar explica\u00e7\u00f5es para um mal-estar persistente. H\u00e1 uma demanda real por compreens\u00e3o e acolhimento. Por outro lado, essa busca por respostas r\u00e1pidas e encaixes prontos contribui para uma crescente banaliza\u00e7\u00e3o dos transtornos mentais e uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de autoconhecimento. Um v\u00eddeo curto que enumera sintomas gen\u00e9ricos pode gerar identifica\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea, mas n\u00e3o substitui \u2014 em hip\u00f3tese alguma \u2014 a escuta cl\u00ednica qualificada. O sofrimento ps\u00edquico \u00e9 multifacetado, complexo e n\u00e3o se reduz a uma lista de comportamentos ou sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia ao autodiagn\u00f3stico, quando associada \u00e0 automedica\u00e7\u00e3o, torna-se ainda mais perigosa. J\u00e1 atendi pessoas que, antes mesmo de qualquer avalia\u00e7\u00e3o profissional, decidiram usar medicamentos indicados por amigos ou baseados em depoimentos de desconhecidos nas redes. Em alguns casos, utilizaram sobras de rem\u00e9dios de familiares, convencidas de que aquilo resolveria seus problemas. Al\u00e9m do risco evidente \u00e0 sa\u00fade f\u00edsica, h\u00e1 tamb\u00e9m o risco de mascarar sintomas que poderiam indicar um transtorno mais grave \u2014 ou, por outro lado, de tratar medicamente algo que poderia ser resolvido com acompanhamento psicol\u00f3gico, escuta e elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa realidade est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 l\u00f3gica do funcionamento das redes sociais. Os algoritmos s\u00e3o projetados para refor\u00e7ar interesses: se voc\u00ea assiste a um v\u00eddeo sobre ansiedade, logo ser\u00e1 bombardeado com conte\u00fados sobre depress\u00e3o, TDAH, transtornos de personalidade, e assim por diante. Em pouco tempo, o usu\u00e1rio passa a viver em uma bolha de patologiza\u00e7\u00e3o do cotidiano, onde qualquer oscila\u00e7\u00e3o emocional ou comportamento fora do &#8220;normal&#8221; vira ind\u00edcio de algum transtorno. O mal-estar humano, que \u00e9 parte da experi\u00eancia de viver, come\u00e7a a ser lido exclusivamente como sintoma de doen\u00e7a.<\/p>\n<div id=\"attachment_147709\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Adriana-Meneses-SE-Noticias.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-147709\" class=\"size-full wp-image-147709\" src=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Adriana-Meneses-SE-Noticias.jpeg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"705\" srcset=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Adriana-Meneses-SE-Noticias.jpeg 600w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Adriana-Meneses-SE-Noticias-255x300.jpeg 255w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-147709\" class=\"wp-caption-text\">Com forma\u00e7\u00e3o m\u00faltipla, Adriana Meneses se destaca nas \u00e1reas de Psicologia, Jornalismo e Pesquisa- Foto: arquivo\/pessoal<\/p><\/div>\n<p>\u00c9 urgente refletirmos sobre os impactos dessa tend\u00eancia. Falar sobre sa\u00fade mental nas redes sociais \u00e9 importante, sim. Nunca se falou tanto sobre ansiedade, burnout, depress\u00e3o \u2014 e isso \u00e9 positivo, pois quebra tabus e incentiva a busca por ajuda. No entanto, quando esse discurso se afasta da responsabilidade e da t\u00e9cnica, abre espa\u00e7o para desinforma\u00e7\u00e3o, diagn\u00f3sticos equivocados e tratamentos inadequados. A sa\u00fade mental exige tempo, cuidado e escuta especializada. O espa\u00e7o terap\u00eautico \u00e9 o oposto da l\u00f3gica acelerada das redes: ele \u00e9 um lugar de pausa, de elabora\u00e7\u00e3o e de constru\u00e7\u00e3o conjunta de sentido.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de desacreditar quem sente dor ps\u00edquica ou quem busca respostas. Mas \u00e9 preciso diferenciar identifica\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3stico. Reconhecer-se em um post pode ser o primeiro passo para buscar ajuda \u2014 n\u00e3o o \u00faltimo. E, definitivamente, n\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o das redes sociais determinar o que voc\u00ea tem ou n\u00e3o tem. Como psic\u00f3loga, tenho acompanhado de perto os efeitos dessa cultura do autodiagn\u00f3stico e percebo como ela muitas vezes atrasa o in\u00edcio de um tratamento adequado, gera frustra\u00e7\u00e3o e at\u00e9 culpa quando o \u201cdiagn\u00f3stico da internet\u201d n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Assim como os testes da Capricho n\u00e3o diziam, de fato, quem \u00e9ramos, os v\u00eddeos no TikTok tamb\u00e9m n\u00e3o dizem. A diferen\u00e7a \u00e9 que, antes, o jogo era l\u00fadico. Hoje, ele envolve sa\u00fade, sofrimento e riscos concretos. Precisamos lembrar que sofrimento ps\u00edquico n\u00e3o se resolve com diagn\u00f3sticos apressados nem com promessas simplistas. \u00c9 necess\u00e1rio tempo, escuta e, principalmente, responsabilidade.<\/p>\n<p>Por Adriana Meneses dos Santos \u2014 Psic\u00f3loga, Jornalista e Pesquisadora<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriana Meneses* Nos anos 90, era comum ver adolescentes com uma edi\u00e7\u00e3o da Revista Capricho nas m\u00e3os, preenchendo question\u00e1rios que prometiam revelar tra\u00e7os de personalidade, signos compat\u00edveis ou mesmo prever o futuro amoroso. Era tudo muito divertido e, no fundo, inofensivo. 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