{"id":145152,"date":"2024-11-19T19:31:00","date_gmt":"2024-11-19T22:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/?p=145152"},"modified":"2024-11-19T19:46:49","modified_gmt":"2024-11-19T22:46:49","slug":"transtorno-do-jogo-o-que-acontece-no-cerebro-de-pessoas-viciadas-em-bets","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/transtorno-do-jogo-o-que-acontece-no-cerebro-de-pessoas-viciadas-em-bets\/","title":{"rendered":"Transtorno do jogo: o que acontece no c\u00e9rebro de pessoas viciadas em bets"},"content":{"rendered":"<p>Uma vontade irresist\u00edvel de arriscar. Uma certeza de que, dessa vez, a sorte vai sorrir. Uma falta de controle sobre gastos. Uma aus\u00eancia de preocupa\u00e7\u00e3o sobre as d\u00edvidas acumuladas.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o algumas frases que podem descrever o que se passa com uma pessoa com depend\u00eancia em apostas, como as bets \u2014 algo que \u00e9 descrito nos manuais de medicina como transtorno do jogo.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria diz que esse quadro \u00e9 marcado por &#8220;um padr\u00e3o de apostas repetidas e cont\u00ednuas, apesar do ato gerar v\u00e1rios problemas na vida do indiv\u00edduo&#8221;. A mat\u00e9ria foi produzida pelo rep\u00f3rter Andr\u00e9 Biernath Role, foi divulgada na BBC News Brasil em Londres nesta ter\u00e7a-feira, 19.<\/p>\n<div id=\"attachment_145153\" style=\"width: 595px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Jogos-bets-se-noticias.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-145153\" class=\"size-full wp-image-145153\" src=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Jogos-bets-se-noticias.png\" alt=\"\" width=\"585\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Jogos-bets-se-noticias.png 585w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Jogos-bets-se-noticias-300x166.png 300w\" sizes=\"(max-width: 585px) 100vw, 585px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-145153\" class=\"wp-caption-text\">Os aplicativos de apostas mexem com diversos circuitos do c\u00e9rebro, que envolvem prazer, estresse e tomada de decis\u00f5es &#8211; Foto: Getty<\/p><\/div>\n<p>A entidade lembra que o problema vai al\u00e9m, e afeta tamb\u00e9m a fam\u00edlia do paciente e toda a sociedade.<\/p>\n<p>Mas o que acontece na cabe\u00e7a de um indiv\u00edduo que \u00e9 acometido pelo transtorno do jogo? Por que algumas pessoas que fazem apostas desenvolvem esse dist\u00farbio \u2014 e outras n\u00e3o? E o que est\u00e1 dispon\u00edvel para ajudar a lidar com esse v\u00edcio?<\/p>\n<p><strong>Um mergulho no c\u00e9rebro do apostador compulsivo<\/strong><\/p>\n<p>O psiquiatra Lucas Spanemberg, pesquisador do Instituto do C\u00e9rebro da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), destaca que a depend\u00eancia em fazer apostas apresenta uma raiz parecida a de outros v\u00edcios, como aqueles relacionados \u00e0s subst\u00e2ncias (\u00e1lcool, nicotina, coca\u00edna\u2026) e aos comportamentos (como sexo, alimenta\u00e7\u00e3o, compras etc.).<\/p>\n<p>&#8220;A gente tem uma \u00e1rea no c\u00e9rebro chamada sistema l\u00edmbico, em que uma s\u00e9rie de estruturas interconectadas formam um circuito de recompensa. Elas s\u00e3o respons\u00e1veis por trazer uma sensa\u00e7\u00e3o de gratifica\u00e7\u00e3o&#8221;, detalha o m\u00e9dico, que tamb\u00e9m \u00e9 professor da Escola de Medicina da PUC-RS.<\/p>\n<p>Qualquer coisa que nos traga prazer \u2014 a atividade sexual, comer um alimento que gostamos muito, estar pr\u00f3ximo de pessoas queridas, etc. \u2014 provoca a libera\u00e7\u00e3o do neurotransmissor dopamina nesse circuito.<\/p>\n<p>&#8220;E esse mecanismo \u00e9 muito importante para a nossa sobreviv\u00eancia e evolu\u00e7\u00e3o como indiv\u00edduo e esp\u00e9cie&#8221;, observa Spanemberg.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que existem subst\u00e2ncias e comportamentos que despejam uma quantidade muito maior da dopamina neste sistema do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 certos fatores que entram no circuito de recompensa e pervertem toda essa experi\u00eancia&#8221;, aponta o psiquiatra.<\/p>\n<p>&#8220;Vamos supor que, numa situa\u00e7\u00e3o prazerosa normal, a dopamina \u00e9 liberada numa intensidade 10. Quando estamos diante de um elemento aditivo, essa intensidade sobe para 100&#8221;, compara ele.<\/p>\n<p>De acordo com o psiquiatra, essa diferen\u00e7a &#8220;inaugura um par\u00e2metro diferente de satisfa\u00e7\u00e3o qu\u00edmica no c\u00e9rebro&#8221;, que &#8220;distorce a cogni\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;traz uma sensa\u00e7\u00e3o de que \u00e9 necess\u00e1rio repetir esse comportamento&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Aos poucos, a pessoa deixa de fazer coisas que seriam gratificantes e trariam uma escala de satisfa\u00e7\u00e3o qu\u00edmica normal para o c\u00e9rebro, para algo que \u00e9 aditivo e traz muito mais dopamina para esse circuito&#8221;, pontua Spanemberg.<\/p>\n<p><strong>Ar\u00e9a do c\u00e9rebro respons\u00e1vel por resolu\u00e7\u00e3o de problemas tem atividade reduzida<\/strong><\/p>\n<p>O m\u00e9dico Vin\u00edcius Andrade, da Comiss\u00e3o de Adic\u00e7\u00f5es da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria, lembra que outras regi\u00f5es do c\u00e9rebro al\u00e9m do sistema l\u00edmbico est\u00e3o envolvidas no transtorno do jogo.<\/p>\n<p>&#8220;Podemos citar \u00e1reas do c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, que fica perto da testa, e \u00e9 respons\u00e1vel pela tomada de decis\u00f5es e resolu\u00e7\u00e3o de problemas&#8221;, diz o especialista, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e9dico assistente do Ambulat\u00f3rio de Transtornos de Impulso da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>&#8220;Em estudos que avaliam indiv\u00edduos com transtorno do jogo, foi observada tamb\u00e9m uma redu\u00e7\u00e3o na conectividade de \u00e1reas como o c\u00f3rtex medial orbitofrontal, o striatum e o c\u00f3rtex cingulado anterior&#8221;, detalha ele.<\/p>\n<p>Alguns trabalhos tamb\u00e9m citam altera\u00e7\u00f5es na am\u00edgdala, que est\u00e1 relacionada com a regula\u00e7\u00e3o do estresse.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, todas essas diferen\u00e7as dificultam a tomada de decis\u00f5es razo\u00e1veis ou conscientes \u2014 como, por exemplo, gastar ou n\u00e3o muito dinheiro em apostas que envolvem um alto grau de incerteza sobre eventuais ganhos futuros.<\/p>\n<p>Temos, ent\u00e3o, um cen\u00e1rio danoso por diversos caminhos: por um lado, h\u00e1 um enorme despejo de dopamina nos sistemas de recompensa, algo que \u00e9 literalmente viciante; por outro, ocorre uma &#8220;bagun\u00e7a&#8221; nos circuitos neuronais que deveriam tomar decis\u00f5es racionais e ponderadas (como n\u00e3o gastar o dinheiro do aluguel ou das contas em apostas, por exemplo).<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que esses efeitos s\u00e3o os mesmos diante de todas as modalidades de jogos \u2014 da aposta feita numa casa lot\u00e9rica ao cassino e o joguinho instalado no celular?<\/p>\n<p>Segundo os especialistas, a quest\u00e3o aqui est\u00e1 relacionada \u00e0 disponibilidade.<\/p>\n<p>Enquanto no caso da loteria \u00e9 preciso se deslocar at\u00e9 um outro local, os aplicativos de aposta est\u00e3o &#8220;grudados&#8221; na pessoa o tempo todo, j\u00e1 que o smartphone virou um apetrecho essencial.<\/p>\n<p>&#8220;Antigamente, a pessoa tinha que ir at\u00e9 um local para poder jogar. Agora, ela \u00e9 bombardeada o tempo todo com possibilidades de ganho e recompensa. Isso muda tanto o tempo de exposi\u00e7\u00e3o quanto a intensidade com que isso acontece&#8221;, avalia Andrade.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m disso, sabemos que essas empresas de tecnologia coletam dados do usu\u00e1rio, o que aprimora as ferramentas para ampliar cada vez mais o est\u00edmulo e prender a aten\u00e7\u00e3o&#8221;, complementa ele.<\/p>\n<p><strong>Por que algumas pessoas desenvolvem o transtorno do jogo \u2014 e outras n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Uma revis\u00e3o de artigos publicada em 2019 na revista Nature Reviews e assinada por especialistas da Universidade Yale, nos EUA, e outras institui\u00e7\u00f5es americanas, canadenses e australianas, calcula que o transtorno do jogo afeta entre 0,4 e 0,6% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O n\u00famero varia consideravelmente de acordo com o local em que levantamentos do tipo s\u00e3o feitos. Em Hong Kong, essa porcentagem fica em 1,8%, enquanto na Austr\u00e1lia pode chegar a 2%.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, os especialistas e a pr\u00f3pria Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) concordam que o dist\u00farbio afeta ao redor de uma a cada 100 pessoas.<\/p>\n<p><strong>Mas e dentro do universo de indiv\u00edduos que fazem apostas com regularidade? H\u00e1 uma tend\u00eancia de o transtorno do jogo ser mais frequente neste grupo?<\/strong><\/p>\n<p>A resposta \u00e9 sim. O m\u00e9dico Hermano Tavares, coordenador do Ambulat\u00f3rio do Jogo Patol\u00f3gico e do Programa de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo, lembra de um trabalho feito h\u00e1 uma d\u00e9cada, que mostrou que 12 a 15% dos brasileiros apostam regularmente.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o dele, esse n\u00famero deve ter aumentado recentemente, com a libera\u00e7\u00e3o das bets e a maior disponibilidade desses servi\u00e7os em aplicativos de celular.<\/p>\n<p>&#8220;Das pessoas que jogam regularmente, em torno de 15% desenvolvem dificuldades com o jogo&#8221;, calcula Tavares.<\/p>\n<p>&#8220;Ou seja, de sete pessoas que gostam de fazer uma fezinha de vez em quando, uma desenvolve esse tipo de problema&#8221;, detalha o especialista.<\/p>\n<p>O psiquiatra destaca que essa \u00e9 uma taxa m\u00e9dia, pois o n\u00edvel de adi\u00e7\u00e3o pode variar de acordo com o tipo de jogo.<\/p>\n<p>&#8220;Um jogo como o do tigrinho ou do avi\u00e3ozinho \u00e9 mais aliciante, ent\u00e3o essa porcentagem tende a ser maior. J\u00e1 uma aposta de loteria \u00e9 algo mais protegido, porque o indiv\u00edduo faz a aposta e demora uma semana para ter acesso ao resultado&#8221;, compara ele.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do desenvolvimento do transtorno do jogo, h\u00e1 uma predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica \u2014 embora n\u00e3o tenham sido identificados genes espec\u00edficos por tr\u00e1s do problema \u2014 e tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de fatores ambientais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da modalidade de jogo e o tipo de aposta, quest\u00f5es como idade e a presen\u00e7a de outras doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas podem influenciar por aqui.<\/p>\n<p>&#8220;Uma exposi\u00e7\u00e3o mais precoce, antes dos 18 anos, quando o sujeito ainda n\u00e3o possui um freio inibit\u00f3rio bem desenvolvido no c\u00e9rebro, \u00e9 um importante fator de vulnerabilidade&#8221;, destaca Spanemberg.<\/p>\n<p>&#8220;Pessoas que j\u00e1 t\u00eam um outro transtorno, como uma depress\u00e3o, por exemplo, tamb\u00e9m apresentam maior risco de desenvolver depend\u00eancia&#8221;, acrescenta ele.<\/p>\n<p>O especialista pondera que todos esses elementos \u2014 gen\u00e9tica, idade, doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas, entre outros \u2014 n\u00e3o determinam se algu\u00e9m vai necessariamente ter um problema relacionado ao jogo.<\/p>\n<p>Mas eles aumentam a probabilidade de &#8220;desenvolver um comportamento pernicioso, danoso e patol\u00f3gico&#8221;, segundo o psiquiatra.<\/p>\n<p><strong>O que define o transtorno do jogo<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria explica que uma pessoa pode ser diagnosticada com o transtorno do jogo quando tem pelo menos quatro sintomas da lista a seguir:<\/p>\n<p>Pensamentos frequentes sobre apostas (como relembrar apostas no passado ou planejar apostas futuras);<br \/>\nNecessidade de apostar, com aumento na quantia gasta para alcan\u00e7ar o mesmo n\u00edvel de excita\u00e7\u00e3o;<br \/>\nEsfor\u00e7os repetidos e frustrados para controlar, diminuir ou parar de apostar;<br \/>\nInquieta\u00e7\u00e3o ou irritabilidade ao tentar reduzir ou parar de jogar;<br \/>\nVer o jogo como uma tentativa de escapar de problemas ou do estresse;<br \/>\nAp\u00f3s perder dinheiro ou algo de valor com apostas, sentir a necessidade de continuar no jogo para \u201cse vingar\u201d \u2014 algo tamb\u00e9m conhecido como &#8220;perseguir&#8221; as pr\u00f3prias perdas para super\u00e1-las;<br \/>\nAp\u00f3s perder dinheiro ou algo de valor com apostas, sentir a necessidade de continuar no jogo para \u201cempatar\u201d \u2014 ou seja, recuperar aquilo que perdeu;<br \/>\nJogar quando sentir algum tipo de ang\u00fastia;<br \/>\nMentir para esconder o quanto est\u00e1 envolvido com jogos de azar;<br \/>\nPerder oportunidades importantes relacionadas com a vida pessoal e profissional por causa do jogo;<br \/>\nContar com a ajuda de outras pessoas para lidar com problemas financeiros causados \u200b\u200bpelo jogo.<br \/>\nAndrade chama a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia do apoio da fam\u00edlia e de amigos nesse processo de diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>\u201cQuando a gente fala de jogo, algo muito comum \u00e9 o indiv\u00edduo mentir e mascarar as perdas ou a quantidade de vezes que aposta\u201d, observa o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u201cAo mesmo tempo, ele tem uma grande vontade de jogar, num comportamento de fissura muito intenso. \u00c9 como se voc\u00ea estivesse com fome e n\u00e3o pudesse comer\u201d, compara ele.<\/p>\n<p>O psiquiatra aponta que, se o paciente n\u00e3o conta com esse apoio de todos que o cercam, a busca por uma ajuda profissional acontece muito tardiamente.<\/p>\n<p>&#8220;E isso gera um enorme preju\u00edzo econ\u00f4mico e familiar&#8221;, lamenta Andrade.<\/p>\n<p><strong>Como tratar o transtorno do jogo<br \/>\n<\/strong><br \/>\nFeito o diagn\u00f3stico, \u00e9 poss\u00edvel lan\u00e7ar m\u00e3o de uma s\u00e9rie de medidas para lidar com a depend\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;A abordagem depende muito das caracter\u00edsticas do paciente&#8221;, diz Spanemberg.<\/p>\n<p>&#8220;A maioria deles possui algum outro transtorno psiqui\u00e1trico associado, como uma depress\u00e3o, que tamb\u00e9m precisa de tratamento&#8221;, acrescenta ele.<\/p>\n<p>&#8220;O jogo muitas vezes \u00e9 uma estrat\u00e9gia, um subterf\u00fagio para lidar com um sentimento negativo que est\u00e1 relacionado com outro dist\u00farbio&#8221;, refor\u00e7a Spanemberg.<\/p>\n<p>Ao tratar a doen\u00e7a de base (como depress\u00e3o ou ansiedade, por exemplo), a tend\u00eancia \u00e9 aliviar esses sentimentos negativos \u2014 e, por consequ\u00eancia, diminuir aos poucos a necessidade de fazer apostas.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, o transtorno do jogo pode ser trabalhado na terapia cognitivo-comportamental, um tipo de psicoterapia em que o paciente e o profissional de sa\u00fade avaliam e discutem comportamentos e pensamentos, para que eles possam ser modificados com o passar do tempo.<\/p>\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m h\u00e1 a entrevista motivacional, uma abordagem usada para entender o est\u00e1gio de consci\u00eancia que o indiv\u00edduo est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 depend\u00eancia. Ele pode se encontrar numa fase de nega\u00e7\u00e3o do problema ou contemplar o que est\u00e1 vivendo. H\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que j\u00e1 est\u00e3o na etapa de a\u00e7\u00e3o, de trabalhar para sair daquela situa\u00e7\u00e3o&#8221;, complementa Spanemberg.<\/p>\n<p><strong>Em alguns casos, os m\u00e9dicos podem tamb\u00e9m prescrever medica\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Sabemos que rem\u00e9dios da classe dos antagonistas opioides podem ajudar a segurar aquele comportamento t\u00edpico da aposta&#8221;, cita Andrade.<\/p>\n<p>O psiquiatra tamb\u00e9m lembra dos grupos de apoio. &#8220;No Brasil, temos os Jogadores An\u00f4nimos e o Gaming Addicts, que fazem um trabalho muito bom&#8221;, sugere ele.<\/p>\n<p><strong>Transtorno de jogo: a demanda por tratamento vai aumentar?<br \/>\n<\/strong><br \/>\nDiante da popularidade das bets \u2014 que, por exemplo, hoje patrocinam a maioria dos clubes de futebol da S\u00e9rie A do Campeonato Brasileiro \u2014, existe um temor em termos de sa\u00fade p\u00fablica sobre o aumento de casos de transtorno do jogo.<\/p>\n<p>Entre os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, essa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 clara.<\/p>\n<p>&#8220;Precisamos discutir n\u00e3o apenas as repercuss\u00f5es sociais do jogo, mas tamb\u00e9m todas as quest\u00f5es de sa\u00fade mental&#8221;, concorda Spanemberg.<\/p>\n<p>Tavares lembra que, em meados dos anos 1990, o Brasil viveu a febre dos bingos e das m\u00e1quinas ca\u00e7a-n\u00edquel.<\/p>\n<p>&#8220;Em 1996, os casos come\u00e7aram a chegar l\u00e1 no Instituto de Psiquiatria da USP. Eu era professor auxiliar e ouvi uma primeira pessoa dizer que gastava todo dinheiro nos bingos, se arrependia, ficava p\u00e9ssimo e depois tentava recuperar\u201d, lembra ele.<\/p>\n<p>\u201cResolvi transformar esse e outros relatos no meu objeto de estudo. Em 1998, ap\u00f3s terminar meu doutorado, abri o Ambulat\u00f3rio de Jogo, onde fazia longas entrevistas com jogadores compulsivos e oferecia tratamento a eles.\u201d<\/p>\n<p><strong>Com o passar do tempo, o servi\u00e7o foi formalizado e precisou ser ampliado.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA depender da \u00e9poca, chegamos a ter entre 5 a 10 profissionais contratados e outros 60 a 70 volunt\u00e1rios no ambulat\u00f3rio. No auge, contamos com cerca de 80 colaboradores\u201d, estima Tavares.<\/p>\n<p>Essa demanda foi reduzida com o fechamento dos bingos, em meados de 2004. Mesmo assim, ela nunca chegou a cessar.<\/p>\n<p>Mais recentemente, de 2018 em diante, com a inunda\u00e7\u00e3o das bets e outros jogos onlines no Brasil, a procura pelos servi\u00e7os do ambulat\u00f3rio voltou a subir.<\/p>\n<p>\u201cCom a nossa estrutura atual, conseguimos atender 80 casos novos por ano, al\u00e9m de acompanhar outros 160 pacientes que fazem um seguimento por cerca de dois anos\u201d, informa o psiquiatra.<\/p>\n<p>\u201cMas diante de um fen\u00f4meno como esse que vivemos agora, ficamos com o triplo de pacientes na fila de espera.\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 claro que esses n\u00fameros n\u00e3o retratam a realidade do Brasil, s\u00e3o apenas gotinhas num oceano muito maior\u201d, avalia o especialista.<\/p>\n<p>Para Tavares, o aumento do acesso \u00e0s apostas est\u00e1 relacionado a uma demanda na frequ\u00eancia do transtorno do jogo entre a popula\u00e7\u00e3o \u2014 e ser\u00e1 necess\u00e1rio criar um aparato no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) para absorver essa demanda de pacientes.<\/p>\n<p>\u201cO jogo sempre existiu e sempre vai existir. O que varia \u00e9 a forma como se regulamenta esse setor\u201d, avalia o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u201cPodemos permitir uma maior ou menor penetra\u00e7\u00e3o deles na sociedade. Se proibimos tudo, isso diminui a demanda por tratamento, embora sempre exista o mercado ilegal.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAgora, caso o jogo seja liberado por uma quest\u00e3o de equil\u00edbrio das contas fiscais e economia, ser\u00e1 necess\u00e1rio fazer um investimento equivalente na sa\u00fade p\u00fablica. Isso precisa virar uma pol\u00edtica de Estado\u201d, opina ele.<\/p>\n<p>&#8220;Se esse investimento n\u00e3o acontecer, o tiro sai pela culatra. A arrecada\u00e7\u00e3o com eventuais impostos n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para tapar o buraco do adoecimento mental e das mazelas financeiras relacionadas ao jogo&#8221;, conclui o psiquiatra.<\/p>\n<p>Por Andr\u00e9 Biernath Role, e publicada na <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cq52lg1g898o\"><strong>BBC News Brasil<\/strong><\/a> em Londres<\/p>\n<p><strong><em>Acompanhe tamb\u00e9m o SE Not\u00edcias no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/senoticias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instagram<\/a><\/em><\/strong>,\u00a0<strong><em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/senoticias1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Facebook<\/a>\u00a0e\u00a0no<\/em>\u00a0<em><a href=\"https:\/\/twitter.com\/Senoticias\">X<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vontade irresist\u00edvel de arriscar. Uma certeza de que, dessa vez, a sorte vai sorrir. Uma falta de controle sobre gastos. Uma aus\u00eancia de preocupa\u00e7\u00e3o sobre as d\u00edvidas acumuladas. Essas s\u00e3o algumas frases que podem descrever o que se passa com uma pessoa com depend\u00eancia em apostas, como as bets \u2014 algo que \u00e9 descrito [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6557,"featured_media":145153,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[15,2961,1],"tags":[42659,42660],"class_list":{"0":"post-145152","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques","8":"category-nacional","9":"category-sem-categoria","10":"tag-transtorno-do-jogo","11":"tag-viciadas-em-bets"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145152"}],"collection":[{"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6557"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=145152"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145152\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/media\/145153"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=145152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=145152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=145152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}