{"id":125622,"date":"2020-11-18T21:16:51","date_gmt":"2020-11-19T00:16:51","guid":{"rendered":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/?p=125622"},"modified":"2020-11-18T21:22:48","modified_gmt":"2020-11-19T00:22:48","slug":"cacique-indigena-e-primeiro-membro-nao-academico-em-banca-de-mestrado-na-ufs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/cacique-indigena-e-primeiro-membro-nao-academico-em-banca-de-mestrado-na-ufs\/","title":{"rendered":"Cacique ind\u00edgena \u00e9 primeiro membro n\u00e3o acad\u00eamico em banca de mestrado na UFS"},"content":{"rendered":"\n<p>A\u200c \u200cFesta da Retomada \u00e9 \u200cuma\u200c celebra\u00e7\u00e3o\u200c da etnia Xok\u00f3\u200c, ind\u00edgenas que vivem na \u200cIlha\u200c \u200cde\u200c \u200cS\u00e3o\u200c \u200cPedro\u200c, em \u200cPorto\u200c \u200cda\u200c \u200cFolha, Sergipe. A 40\u00aa edi\u00e7\u00e3o da festividade \u00e9 o tema da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de Angelita Queiroz, defendida &#8211; e aprovada &#8211; no \u00faltimo dia 17, atrav\u00e9s de uma plataforma online, no mestrado do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Culturas Populares (PPGCULT) da UFS.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/cacique_b_-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-125623\"\/><figcaption>Lucim\u00e1rio Apolonio Lima, o Cacique B\u00e1: \u201cDe certa forma, a cultura se fortalece com esse trabalho, porque vai ficar registrado, marcado\u201d. (Foto: acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A banca examinadora teve a participa\u00e7\u00e3o de Lucim\u00e1rio Apolonio Lima, o Cacique B\u00e1, da comunidade ind\u00edgena Xok\u00f3. Foi a primeira vez que um membro n\u00e3o acad\u00eamico comp\u00f4s uma banca de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O cacique integrou a mesa como quarto membro, somando-se \u00e0 forma\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de tr\u00eas participantes: o orientador Fernando Jos\u00e9 Ferreira Aguiar; Jos\u00e9 Adelson Lopes Peixoto, professor da Universidade Estadual de Alagoas, como examinador externo; Roberto dos Santos Lacerda, como examinador interno. A professora Neila Dourado Gon\u00e7alves Maciel, escalada como suplente, tamb\u00e9m participou da banca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mestres de saberes e fazeres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de um quarto membro nas bancas foi regulamentada pelo PPGCULT para abrigar os chamados Mestres da Cultura Popular. A UFS confere o grau de M\u00e9rito Universit\u00e1rio Especial em Saberes e Fazeres, Artes e Culturas Populares para aquelas pessoas n\u00e3o detentoras de t\u00edtulo acad\u00eamico que comprovem \u201cdestacada experi\u00eancia e produ\u00e7\u00e3o nos diferentes saberes, fazeres e linguagens de todas as \u00e1reas de conhecimento, popular e tradicional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo para concess\u00e3o do t\u00edtulo pela UFS se d\u00e1 atrav\u00e9s de um edital \u2013 cada caso \u00e9 analisado por uma comiss\u00e3o de pesquisadores da institui\u00e7\u00e3o. O Cacique B\u00e1 conquistou esse t\u00edtulo ao ser aprovado pelo primeiro edital da UFS, no ano passado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA participa\u00e7\u00e3o do Cacique B\u00e1 \u00e9 o reconhecimento de que, de fato, os mestres de saberes e fazeres s\u00e3o as pessoas mais leg\u00edtimas para poderem avaliar o que est\u00e1 sendo dito sobre elas. \u00c9 uma possibilidade de eles tamb\u00e9m terem esse lugar de fala. \u00c9 um di\u00e1logo honesto, humanizado, dentro das rela\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico com essas outras formas de saberes e conhecimento\u201d, analisa Fernando Aguiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o Cacique B\u00e1, ser o primeiro membro n\u00e3o acad\u00eamico a integrar uma banca de mestrado da UFS \u00e9 motivo de orgulho. \u201cPor ser um fato in\u00e9dito, me sinto muito honrado. Com certeza, isso representa o espa\u00e7o conquistado pelo nosso povo. Apesar de o pa\u00eds ainda ter uma certa forma de enxergar os \u00edndios, a minha participa\u00e7\u00e3o significa um avan\u00e7o\u201d, avalia.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Fernando, a UFS d\u00e1 um passo significativo ao reconhecer, atrav\u00e9s de uma equival\u00eancia de t\u00edtulo, mesmo n\u00e3o sendo a precursora, a import\u00e2ncia e o conhecimento de grandes nomes da cultura popular do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSua participa\u00e7\u00e3o nos fortalece como universidade inclusiva, que reconhece, efetivamente, outras formas de saberes e de conhecimentos para al\u00e9m da que ela produz. \u00c9 um di\u00e1logo de aproxima\u00e7\u00e3o entre o conhecimento acad\u00eamico e os saberes populares e tradicionais. Mais do que isso, \u00e9 uma forma de nos integrarmos, de uma forma coesa, fortalecida e empoderada, com a pr\u00f3pria sociedade em que estamos inseridos, a partir da pr\u00f3pria pluralidade e da diversidade \u00e9tnico-cultural e \u00e9tnico-racial\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra etapa almejada \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o dos Mestres em atividades da UFS \u2013 como as de extens\u00e3o, por exemplo -, que estejam relacionadas com seus conhecimentos, podendo ser remunerados para isso. H\u00e1 um processo em tramita\u00e7\u00e3o na institui\u00e7\u00e3o que regulamentaria essa possibilidade, como j\u00e1 ocorre em outras universidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Festa da Retomada e o trip\u00e9 identit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Festa da Retomada \u00e9 um momento de celebra\u00e7\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o cultural que acontece anualmente no dia 9 de setembro, recordando a data em que o povo Xok\u00f3 retomou a Ilha de S\u00e3o Pedro, no ano de 1979. Angelita Queiroz investigou os elementos constituintes da cerim\u00f4nia: o Ouricuri, a Dan\u00e7a do Tor\u00e9 e a Celebra\u00e7\u00e3o na Igreja. Segundo a pesquisadora, eles configuram um ambiente de an\u00e1lise sobre a autoafirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria dos Xok\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA pesquisa foi uma verdadeira imers\u00e3o nos livros, no Rio S\u00e3o Francisco e na Ilha de S\u00e3o Pedro com toda comunidade, tendo como ambi\u00eancia de an\u00e1lise a 40\u00aa Festa da Retomada dos Xok\u00f3, que aconteceu em 09 de setembro de 2019. A Comunidade Ind\u00edgena Xok\u00f3 \u00e9 linda, com um povo extremamente organizado e acolhedor. S\u00f3 tenho que agradecer por tudo que vivenciei durante o per\u00edodo do mestrado realizado no PPGCULT, que possibilitou toda essa imers\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>O Ritual do Ouricuri \u00e9 \u201cuma ocasi\u00e3o em que apenas os ind\u00edgenas se deslocam para a mata e por l\u00e1 permanecem durante tr\u00eas dias e tr\u00eas noites em contato com os costumes e o modo de viver dos seus ancestrais\u201d, descreve a pesquisadora em seu trabalho. \u201c\u00c9 um momento de rememorar e vivenciar o contato com os recursos naturais, sem o uso da eletricidade e da tecnologia, efetuando assim um desprendimento total do mundo moderno\u201d, analisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo elemento, a Dan\u00e7a do Tor\u00e9, ocorre quando os ind\u00edgenas retornam do Ouricuri e se encontram com a comunidade na Ilha de S\u00e3o Pedro, para comemorarem com todos. \u00c9 uma dan\u00e7a \u201cmuito sincronizada, com passos fortes, p\u00e9s descal\u00e7os no ch\u00e3o de terra, o olhar tamb\u00e9m voltado para a terra, movimentos precisos e repetitivos intensificados com o p\u00e9 direito, ao som do marac\u00e1 (chocalho ind\u00edgena)\u201d, relata Angelita.<\/p>\n\n\n\n<p>A Dan\u00e7a do Tor\u00e9 prossegue simultaneamente ao translado de todos os ind\u00edgenas e visitantes, da Pra\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao P\u00e1tio da Igreja de S\u00e3o Pedro, onde acontece uma celebra\u00e7\u00e3o festiva em louvor \u00e0 Retomada.<\/p>\n\n\n\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Fernando Aguiar, o estudo desenvolvido por Angelita ajuda a preservar a tradi\u00e7\u00e3o da comunidade. \u201cEla faz com que as pessoas tenham acesso \u00e0 cultura e reconhe\u00e7am que, mesmo que os Xok\u00f3 sejam socialmente, etnicamente e culturalmente diferentes, eles fazem parte e integram o que chamamos de povo sergipano\u201d, pontua.<\/p>\n\n\n\n<p>O Cacique B\u00e1 tamb\u00e9m acredita que a pesquisa pode contribuir com a preserva\u00e7\u00e3o da cultura dos Xok\u00f3. \u201c\u00c9 uma marca que a comunidade nunca vai perder. N\u00f3s iremos acabar, mas a pesquisa vai persistir e vai resistir por toda a vida, servindo como instrumento de estudos para outros. De certa forma, a cultura se fortalece com esse trabalho, porque vai ficar registrado, marcado\u201d, analisa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A comunidade Xok\u00f3<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Localizada na Ilha de S\u00e3o Pedro, Porto da Folha, a comunidade Xok\u00f3 \u00e9 o \u00fanico grupo ind\u00edgena de Sergipe. Identificados pelos jesu\u00edtas no s\u00e9culo XVI, seus habitantes tiveram suas terras tomadas, recuperando a ilha de S\u00e3o Pedro somente em 1979. Em meados dos anos 90, a FUNAI homologou a Cai\u00e7ara, anexando a Ilha de S\u00e3o Pedro, constituindo assim a terra ind\u00edgena da etnia Xok\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Em comemora\u00e7\u00e3o \u00e0 sua volta \u00e0 Ilha de S\u00e3o Pedro, os Xok\u00f3 realizam todos os anos, no dia 9 de setembro, a Festa da Retomada. \u201cComemoramos porque foi a partir da nossa sa\u00edda da Cai\u00e7ara para a Ilha que come\u00e7amos a conseguir a nossa liberdade. Mas isso custou caro, foram muitas noites mal dormidas, persegui\u00e7\u00f5es e amea\u00e7as. Antes de virmos para a ilha, \u00e9ramos impedidos de dan\u00e7ar o Tor\u00e9, cantar o Tor\u00e9, de trabalhar para n\u00f3s mesmo. Viv\u00edamos como escravo. Ent\u00e3o \u00e9 a comemora\u00e7\u00e3o da nossa liberdade, da reconquista do nosso territ\u00f3rio\u201d, relata o Cacique B\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Angelita, a comunidade \u00e9 s\u00edmbolo de resist\u00eancia. \u201c\u00c9 uma representatividade muito bonita e singular para o estado, visto que os Xok\u00f3 apresentam um arcabou\u00e7o hist\u00f3rico de extrema relev\u00e2ncia para compreens\u00e3o de alguns acontecimentos no passado e congregam um conjunto de ritos e elementos fundamentais para sobreviv\u00eancia e autoafirma\u00e7\u00e3o da comunidade\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p>Quer receber as principais not\u00edcias do\u00a0<strong>SE Not\u00edcias<\/strong>\u00a0no seu\u00a0<strong>WhatsApp?<\/strong>\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/api.whatsapp.com\/send?phone=5579991715289\">Clique aqui<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Acompanhe tamb\u00e9m o SE Not\u00edcias no\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/twitter.com\/Senoticias\" target=\"_blank\">Twitter<\/a>,\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/senoticias1\" target=\"_blank\">Facebook<\/a>\u00a0e no\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/senoticias\/\" target=\"_blank\">Instagram<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u200c \u200cFesta da Retomada \u00e9 \u200cuma\u200c celebra\u00e7\u00e3o\u200c da etnia Xok\u00f3\u200c, ind\u00edgenas que vivem na \u200cIlha\u200c \u200cde\u200c \u200cS\u00e3o\u200c \u200cPedro\u200c, em \u200cPorto\u200c \u200cda\u200c \u200cFolha, Sergipe. 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