{"id":102245,"date":"2017-04-10T06:32:21","date_gmt":"2017-04-10T09:32:21","guid":{"rendered":"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/?p=102245"},"modified":"2017-04-10T19:43:13","modified_gmt":"2017-04-10T22:43:13","slug":"fila-de-espera-para-mudanca-de-sexo-em-ambulatorio-no-nordeste-chega-a-13-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/fila-de-espera-para-mudanca-de-sexo-em-ambulatorio-no-nordeste-chega-a-13-anos\/","title":{"rendered":"Fila de espera para mudan\u00e7a de sexo em ambulat\u00f3rio no Nordeste chega a 13 anos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_102246\" style=\"width: 287px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-102246\" class=\"size-full wp-image-102246\" src=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/casamento-do-mesmo-sexo-senoticias.jpg\" alt=\"Duda Mel, \u00e0 esquerda, foi a primeira bailarina cl\u00e1ssica trans do Brasil a fazer cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o sexual. (Foto: Sumaia Villela\/Ag\u00eancia Brasil)\" width=\"277\" height=\"160\" \/><p id=\"caption-attachment-102246\" class=\"wp-caption-text\">Duda Mel, \u00e0 esquerda, foi a primeira bailarina cl\u00e1ssica trans do Brasil a fazer cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o sexual. (Foto: Sumaia Villela\/Ag\u00eancia Brasil)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duda Mel, de 38 anos, tomou horm\u00f4nios por conta pr\u00f3pria por mais de duas d\u00e9cadas at\u00e9 encontrar apoio m\u00e9dico gratuito e, h\u00e1 nove meses, dar o passo final para ver no espelho a imagem que refletia a identidade na qual ela se via.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira bailarina cl\u00e1ssica trans do Brasil fez a cirurgia de transgenitaliza\u00e7\u00e3o \u2013 mudan\u00e7a de sexo \u2013 no \u00fanico espa\u00e7o do Norte e Nordeste do pa\u00eds a oferecer o servi\u00e7o por meio do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS): o Espa\u00e7o de Cuidado e Acolhimento de Pessoas Trans, localizado no Hospital das Cl\u00ednicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Recife. O ambulat\u00f3rio \u00e9 refer\u00eancia na \u00e1rea, mas tem uma demanda muito superior \u00e0 capacidade. Atualmente, a fila de espera para fazer a cirurgia \u00e9 de 13 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estimativa \u00e9 da psic\u00f3loga Suzana Livadias, coordenadora do Espa\u00e7o Trans. Segundo ela, desde a inaugura\u00e7\u00e3o do ambulat\u00f3rio, s\u00e3o feitas, em m\u00e9dia, dez cirurgias de redesigna\u00e7\u00e3o sexual por ano. A sala de cirurgia e dois cirurgi\u00f5es s\u00e3o disponibilizados uma vez por m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, 230 pessoas s\u00e3o atendidas pelo local. Dessas, 170 nasceram com a genit\u00e1lia masculina, mas se identificam como mulheres e cerca de 130 querem fazer a mudan\u00e7a de sexo. \u201cEm tese, ent\u00e3o, s\u00e3o 13 anos, pelo menos neste momento. Nosso sonho \u00e9 aumentar para duas cirurgias por m\u00eas\u201d, diz a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da fila para a cirurgia, existe uma demanda reprimida para atendimento psicol\u00f3gico no ambulat\u00f3rio. Cerca de 170 pessoas aguardam para iniciar esse tratamento, e quatro entram no servi\u00e7o por m\u00eas. \u201cA gente hoje est\u00e1 chamando a pessoa que se inscreveu em maio de 2016\u201d, conta M\u00f4nica Mota, psic\u00f3loga que trabalha no Espa\u00e7o Trans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transgenitaliza\u00e7\u00e3o de homem para mulher, uma das cirurgias de redesigna\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 garantida pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) desde 2008. O servi\u00e7o foi ampliado com a Portaria n\u00b0 2.803, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, inserindo novos procedimentos hospitalares e m\u00e9todos para a mudan\u00e7a de mulher para homem. Est\u00e3o inclu\u00eddos procedimentos cir\u00fargicos como a coloca\u00e7\u00e3o de pr\u00f3tese mam\u00e1ria e a tireoplastia (mudan\u00e7a da voz), a terapia com horm\u00f4nios e atendimentos especializados, psicol\u00f3gico e de assist\u00eancia social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A portaria estabelece regras para realiza\u00e7\u00e3o dos procedimentos cir\u00fargicos, entre elas, o acompanhamento psicoter\u00e1pico por pelo menos dois anos e a necessidade de um laudo psicol\u00f3gico ou psiqui\u00e1trico diagnosticando a transexualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO expresso desejo e autodenomina\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira coisa. Seria autoritarismo demais definir quem vai e quem n\u00e3o vai. Ao longo dos dois anos se o desejo perdurar a pessoa faz [a cirurgia]\u201d, diz a coordenadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 ainda uma limita\u00e7\u00e3o de idade: 18 anos para atendimento no ambulat\u00f3rio e hormonioterapia e 21 anos para interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mais que uma cirurgia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da alta procura pela redesigna\u00e7\u00e3o sexual, a coordenadora do Espa\u00e7o Trans lembra que o ambulat\u00f3rio oferece diversos servi\u00e7os complementares. Para ela, o atendimento integral garantido pela equipe formada por ginecologista, psic\u00f3logo, psiquiatra, urologista, fonoaudi\u00f3logo, endocrinologista e assistente social tem um papel mais amplo que uma mudan\u00e7a corporal: \u00e9 a problematiza\u00e7\u00e3o de como a pessoa entende o seu g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMuitas vezes o entendimento \u00e9 que para ser mulher ou homem voc\u00ea tem que passar pela cirurgia de trangenitaliza\u00e7\u00e3o. Se, desde o in\u00edcio, n\u00e3o \u00e9 a genit\u00e1lia que definiu as pessoas como tal, ent\u00e3o por que vamos afirmar que elas ser\u00e3o [homens ou mulheres] a partir da cirurgia? \u00c9 um paradoxo, uma quest\u00e3o para pensar\u201d, diz Suzana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO que \u00e9 importante para gente \u00e9 poder entender os sofrimentos vividos, de onde eles v\u00eam. Se puder pensar direitinho quem tem que fazer a cirurgia \u00e9 a sociedade, que entende o homem ou a mulher a partir apenas do corpo\u201d, completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lucl\u00e9cia Amorim, de 29 anos, \u00e9 atendida h\u00e1 um ano e meio no Espa\u00e7o Trans. Chegou com o objetivo de fazer uma cirurgia de transgenitaliza\u00e7\u00e3o. Mas, ao longo do processo de atendimento por uma equipe multiprofissional e das conversas em grupo, ela resolveu fazer somente a terapia com horm\u00f4nios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu j\u00e1 era uma mulher independentemente do meu \u00f3rg\u00e3o sexual\u201d, afirma. \u201cFoi um processo super natural, nada induzido. A maturidade tamb\u00e9m ajuda muito. S\u00e3o dois anos, mas parece que s\u00e3o 20. E tudo que voc\u00ea vai passando, suas transforma\u00e7\u00f5es corporais, voc\u00ea vai vendo que o que precisava era da imagem, n\u00e3o era a quest\u00e3o sexual, que estava muito bem resolvida. Meu problema era s\u00f3 com a est\u00e9tica. Eu precisava olhar no espelho e me identificar como uma mulher\u201d, destaca Lucl\u00e9cia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mudan\u00e7a de vida<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A agente de endemias Gyslaine Barbosa, de 28 anos, aguardou seis anos para conseguir ter o corpo que correspondia \u00e0 identidade que ela carregava desde crian\u00e7a. Ela j\u00e1 era atendida no Hospital das Cl\u00ednicas desde que a cirurgia era feita em uma linha de pesquisa cient\u00edfica. O servi\u00e7o foi habilitado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade em outubro de 2014. Depois disso, Gyslaine ainda teve que esperar mais dois anos para cumprir as regras exigidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moradora de Surubim, munic\u00edpio localizado a 120 km da capital pernambucana, ela enfrentou uma rotina exaustiva para receber os atendimentos. \u201cMeia-noite j\u00e1 tinha que pegar o \u00f4nibus para estar no hospital [de manh\u00e3]. E era duas vezes por m\u00eas. A gente n\u00e3o dormia, n\u00e3o comia. E, quando terminava a consulta ao meio-dia, ainda tinha que esperar o \u00f4nibus que passa \u00e0s 17h recolhendo o pessoal. Quando eu chegava em Surubim j\u00e1 eram 20h, at\u00e9 chegar em casa era meia-noite.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela conta que viveu como homem por muitos anos at\u00e9 que n\u00e3o aguentou mais esconder como se sentia. \u201cTive que crescer como um menino. Ningu\u00e9m podia saber o que eu estava sentindo, o que eu era. Porque ningu\u00e9m acreditava. Mas chegou um certo ponto que eu n\u00e3o aguentei mais. Eu tinha meu emprego, terminei meus estudos, era gerente de loja e cheguei no meu limite. Cheguei chorando na loja que minha irm\u00e3 trabalhava. Eu desabafei: eu sou uma mulher, n\u00e3o sou esse corpo que eu sou. S\u00f3 tenho dois caminhos: ou eu abro para todo mundo ou vou correr o risco de me matar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bailarina cl\u00e1ssica Eduarda Vit\u00f3ria Cassiano, de 38 anos, cujo nome art\u00edstico \u00e9 Duda Mel, tamb\u00e9m fez parte do primeiro grupo atendido no ambulat\u00f3rio pernambucano. Sua hist\u00f3ria com a transexualidade come\u00e7ou aos 14 anos, em uma \u00e9poca em que se conhecia pouco sobre o tema. A cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o, por exemplo, era proibida at\u00e9 1997. A coragem de expor sua identidade de g\u00eanero veio da dan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu cheguei e disse a minha professora que ia sair do bal\u00e9 porque eu queria mudar mais o meu corpo. Ela disse que n\u00e3o, que n\u00e3o ia me abandonar. Ela foi como minha m\u00e3e\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duda trabalhou como professora auxiliar por 15 anos. Por muito tempo dan\u00e7ou como menino. Mesmo assim, enfrentou preconceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTeve uma escola que n\u00e3o aceitou o fato de eu ser auxiliar. Minha professora disse &#8216;onde n\u00e3o couber voc\u00ea n\u00e3o me cabe&#8217;. A gente foi para outras escolas que me aceitaram. A\u00ed vieram as mudan\u00e7as no meu corpo, meu cabelo eu deixei crescer\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de mais de 10 anos, ela passou a dan\u00e7ar como menina, usando a sapatilha de ponta \u2013 s\u00f3 usada por mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duda Mel diz que a cirurgia mudou sua vida. Nas aulas, as crian\u00e7as a chamam de tia. E em casa, onde o espelho era proibido, hoje s\u00f3 em seu quarto h\u00e1 cinco deles. Coisas simples como usar um biqu\u00edni j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o um problema. E coisas maiores, como estar em paz consigo mesma, foram poss\u00edveis. A cirurgia, segundo ela, foi muito al\u00e9m da est\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c[Quando eu era pequena] Eu pensava: vou passar embaixo do arco-\u00edris e vou sair mulher. Eu vou dormir agora chorando, com raiva, e quando acordar eu vou acordar mulher. O arco-\u00edris nunca chegou, mas hoje eu consegui.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-102041\" src=\"http:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Logo-fone-1-2-1-2-4-6.jpg\" alt=\"Logo-fone-1-2-1-2-4\" width=\"599\" height=\"78\" srcset=\"https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Logo-fone-1-2-1-2-4-6.jpg 599w, https:\/\/senoticias.com.br\/se\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Logo-fone-1-2-1-2-4-6-300x39.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acompanhe tamb\u00e9m o SE Not\u00edcias no<\/strong><span class=\"apple-converted-space\"><b>\u00a0<\/b><\/span><a href=\"https:\/\/twitter.com\/Senoticias\" target=\"_blank\"><b>Twitter<\/b><\/a><strong>,<\/strong><span class=\"apple-converted-space\"><b>\u00a0<\/b><\/span><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/senoticias1\" target=\"_blank\"><b>Facebook<\/b><span class=\"apple-converted-space\"><b>\u00a0<\/b><\/span><\/a><strong>e no<\/strong><span class=\"apple-converted-space\"><b>\u00a0<\/b><\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/senoticias\/\" target=\"_blank\"><b>Instagram<\/b><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sumaia Villela \u2013 Correspondente da Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duda Mel, de 38 anos, tomou horm\u00f4nios por conta pr\u00f3pria por mais de duas d\u00e9cadas at\u00e9 encontrar apoio m\u00e9dico gratuito e, h\u00e1 nove meses, dar o passo final para ver no espelho a imagem que refletia a identidade na qual ela se via. 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